Cardus Edição 128, dezembro 2023
espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava
numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,
pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos...
e até por quem nos falta então se irisa
na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.
Estamos em Luanda, fins dos anos sessenta, dia 24 de dezembro, na sala de oficiais do Centro de Instrução de Comandos. Na sala estão o oficial de dia e alguns camaradas de armas que se deslocaram ao quartel para fazerem companhia a quem está de serviço. Alguns trazem mesmo a família mais chegada. O oficial de dia é uma pessoa simpática, vive sozinho, tem a família longe. Não estava escalado, alguém lhe pediu para trocar, aceitou sem problemas, passar a noite de consoada no quarto ou no quartel é para ele a mesma coisa.
Quem veio trouxe um bolo-rei para a festa. Este é rapidamente consumido, provavelmente acompanhado de algumas bebidas que vieram do bar. Bolo despachado, visitas a prepararem-se para sair, alguém acha estranho que a fava não tenha aparecido. O tal legume que, a quem calhasse, segundo a tradição, deveria pagar o bolo do ano seguinte. Todos olharam uns para os outros, ninguém se acusou, um momento de silêncio instala-se na sala. O oficial de dia, coçou a cabeça, pensou um bocado e, com o ar mais cândido do mundo, diz:
- Tenho ideia de ter comido uma coisa dura. Será que era a fava?
(A festa terminou com uma grande risota e comentários jocosos. Ao oficial de dia o bolo-rei tinha chegado pela primeira vez. Da noite de consoada apenas recordava que o rancho era melhorado, que ia para a cama ligeiramente mais tarde e que no dia seguinte aparecia sempre um pequeno presente sobre os sapatos deixados no lugar apropriado)