Cardus Edição 127, novembro 2023
São Tomé e Príncipe é um dos mais pequenos países do Mundo. São praticamente duas ilhas perdidas no Atlântico Sul (no golfo da Guiné). A linha do Equador, o famoso paralelo, passa pelo sul da maior das duas, S. Tomé. A outra ilha, o Príncipe (a mais bonita e selvagem) fica mais a norte.
Clima tropical, vegetação luxuriante, praias de sonho, é um paraíso da natureza o que só por si merece uma visita. É também dos países mais pobres do Mundo e não é preciso consultar estatísticas para confirmar esta afirmação, basta andar pelas ruas ou pelas estradas do país.
O turismo é muito incipiente, as infraestruturas rodoviárias quase todas degradadas não ajudam muito. Existem duas estradas principais, a N1 e a N2; uma para a esquerda norte, outra para a direita sul. As duas começam com asfalto mais ou menos composto, que rapidamente vai dando lugar a grandes buracos e piso de pedra solta e, perto do final, muitas vezes não se sabe se se está na estrada ou na mata. Mas não há problema, pois o telemóvel tem sempre rede e, ao menor percalço, logo aparece gente para ajudar. Não há uma estrada que dê a volta à ilha, que seria a mais bonita do mundo, título que já está associado à N2 embora, para quem conduz, não seja propriamente o caso. O trânsito é muito intenso no início das estradas (junto à capital) mas à medida que se avança para o interior reduz-se drasticamente. A partir de certa altura só se vê mesmo um ou outro jeep com europeus dentro, garantidamente turistas em passeio exótico.
Come-se do que a terra (e o mar) dá em S. Tomé. E a natureza é aqui bastante generosa, para quem está e para quem visita. E quem está aprendeu com o tempo como melhorar o que já de raiz é bastante bom. E que quem chega aprecia.
Há muita criança e juventude em S. Tomé. E muitas escolas e jardins de infância. E dá gosto ver, de manhã, as crianças de farda limpa e aspeto cuidado a dirigirem-se, em grandes grupos, para a escola. E ver alguns pais a chegarem de mota e dela saltarem duas ou mais crianças sorridentes em contraste com o ar sério dos progenitores. E os pais a seguirem viagem (pai à frente com capacete e mãe atrás com cabeça descoberta) e as crianças a correrem para o portão onde o sorriso aberto é o primeiro a chegar.
Ensina-se, fala-se, escreve-se e lê-se em português em S. Tomé. Estou junto a uma sala de informática onde um professor local dá a sua aula, três vezes por semana. São 20 alunos e 10 computadores, todos oferecidos, alguns já com muitos anos de CPU. Todos funcionam, e quem está fora percebe que o professor conhece bem a matéria que leciona.
São Tomé e Príncipe vive fundamentalmente da ajuda internacional, da qual, aparentemente, pouca ou nenhuma chega aos mais necessitados ou ao desenvolvimento das infraestruturas de base. O título desta crónica é férias ODS. Férias toda a gente sabe o que são. ODS é uma sigla muito conhecida no mundo das Organizações Não Governamentais, mas arrisco a dizer, desconhecida do público em geral. Traduz-se por Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e são um apelo global, liderado pelas Nações Unidas, à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares possam desfrutar de paz e prosperidade. Há muita literatura sobre este tema na internet, muita conferência, muita teoria, muitos papers, muito dinheiro gasto mas, para quem está de fora, o que transparece é muita conversa, muita viagem, muita foto, muito culto de imagem e poucos resultados práticos.
Juntar férias e ODS é isso mesmo. Poderemos dizer que se trata de um novo conceito de férias: uma maneira de conhecer países exóticos e colaborar no desenvolvimento. Nada para mudar o mundo, apenas mais uma gota no oceano, que, contudo, o torna maior, como dizia a Madre Teresa de Calcutá.
O autor fez férias ODS em S. Tomé. A parte das férias correu muito bem, a parte do ODS foi um pouco atribulada. Consistia em instalar e colocar ao serviço um sistema fotovoltaico para alimentar a sala de informática de um Centro de Formação Profissional. As complicações surgiram com uma coisa que todos os países têm e que se chama Alfândega, por onde passa tudo o que entra e sai do país. E mesmo para equipamentos doados há que pagar. E bastante. E quem recebe não tem dinheiro para pagar. E assim foi preciso arranjar dinheiro e procrastinar o regresso do autor. Mas foi gratificante, no último dia, ligar os equipamentos e verificar que tudo funcionava, que o centro dispõe agora de um sistema de fornecimento de energia alternativo, que vai facilitar a gestão da energia e apoiar a formação nesta área. E tudo foi montado pela equipa local a mesma que vai assegurar a manutenção do sistema. E na festa também colaborou uma vistosa e ruidosa chuva tropical que durante a tarde do último dia acompanhou eficazmente os trabalhos, pois permitiu identificar e corrigir alguns defeitos nas chapas do telhado da sala dos equipamentos.
Férias ODS, um novo conceito a aplicar. E que se recomenda. Que já é aplicado por muitas organizações, embora sem este rótulo ou mesmo algum. Que também deveria ser aplicado numa organização de que não cito o nome, mas que a maior parte dos leitores deste jornal conhecem bem.