Cardus Edição 125, setembro 2023

CARDUS


Lagom

É a palavra sueca, sem tradução direta para português, que tem sido usada para caraterizar o modo de vida sueco. Significa “nem de mais nem de menos” que, na prática, se traduz por ter uma vida moderada, valorizar pouco as conquistas pessoais e mais as contribuições para o bem-estar geral. Implica, por exemplo, fazer pausas durante o trabalho, usar roupas simples e tratar os outros com respeito e simpatia.




Caminhos a Norte


Caminhar, dizem os profissionais de saúde, faz bem ao espírito e ao físico. Pode-se caminhar por qualquer lado, mas o mais habitual é fazê-lo pelos caminhos que alguém ou o tempo criaram e marcaram. Há caminhos por todo o mundo, já caminhei por muitos, continuo a gostar de caminhar e a fazê-lo sempre que posso, mesmo por fora. O ato de caminhar é automático, não é preciso estar concentrado na tarefa, pelo que podemos usar o cérebro para resolver problemas da vida, ou então, simplesmente, para observar e registar tudo o que existe à volta dos caminhos. Como, por exemplo, ao longo deste caminho de cerca de sete quilómetros, situado mais ou menos 65 km a norte de Gotemburgo, por onde, um dia destes, tive o prazer de caminhar:

têm a vida facilitada os carteiros da Suécia. Não precisam de andar de casa em casa a entregar cartas ou encomendas. Pegam no molho e é como entregar em prédios: distribuir pelas caixas e passar ao próximo lote;

toda a família tradicional sueca tem um barco e por todo o lado existem ancoradouros privados ou coletivos. 2,6 % da superfície do país é constituída por ilhas. São mais de 200 mil, quase 600 com uma área superior a 1 km2;

pode-se passear à vontade, não há muros, os que há são de pedra e não muito altos (dá para saltar). Em vez do portão com cadeado põe-se uma tabuleta sempre que é necessário alguma privacidade;

quem diz que o número da porta deve ficar por cima ou ao lado? Porque não colocado sobre a pedra do muro?;



recordo um documentário antigo sobre a Suécia e a imagem de um agricultor a arrastar pedras para poder alargar a sua área de cultivo. E penso que toda a área cultivada da Suécia resulta de muito arrastar de pedras. A pedra é omnipresente por onde quer que se ande na Suécia;

os suecos adoram a sua bandeira. Esta pode estar permanentemente içada ou apenas em alguns dias: que podem ser aqueles em que alguém faz anos (nomeadamente a família real) ou simplesmente por estar um dia cheio de sol. Mesmo em casas pequenas, como na da foto, o símbolo nacional está sempre presente;

para sinalizar as lombas bastam duas estacas metálicas. E quem rodar a mais de trinta à hora vai dar um bom salto dentro do carro. As cores da zebra seguem o padrão sueco: azul e amarelo, as cores da bandeira;

uma placa vertical com nomes e um pequeno canteiro com flores à frente é o que alguns que ficam criam para quem já partiu. E o espaço é bem tratado, apenas as placas dizem que o jardim é especial;

poda-se a árvore, os ramos e folhas vão caindo e, acabado o trabalho, junta-se tudo num cantinho bem marcado. Só então se comunica ao proprietário que a árvore já respira melhor, e que os resíduos estão prontos para serem levados;

que tal um jardineiro que está sempre pronto para trabalhar. Dá-se-lhe um plano de trabalhos e ele encarrega-se de tudo, mesmo da sua própria alimentação. Chegada a hora, pára o trabalho, vai ao refeitório, acomoda-se, alimenta-se e, barriga cheia, ei-lo de novo a aparar a relva, recomeçando onde parou. De dia, de noite, fins de semana, sempre que o patrão quiser. E sem reclamações, sem reivindicações, sem exigências de pagamento de  horas extraordinárias. Quem é que não quer um jardineiro destes?;

ao contrário de um Bamby que fugiu antes que lhe conseguisse apontar a câmara do telemóvel, estes cavalos deixaram-se ficar, ignorando completamente quem passava ao lado - mesmo quando este se aproximou para um contacto mais pessoal;

não são pescadores de águas turvas porque as águas são limpas e relativamente claras. E mais quentes que nas praias de Portugal. E, pelos vistos,  também devem ter peixes. O que sucede a estes, quando apanhados, se regressam às águas ou seguem para a frigideira do pescador, foi questão que ficou no ar;

por todo o espaço existem cabanas de arrumações todas bem mantidas, cuidadas e com uma arquitetura típica e vistosa. Algumas, mesmo muito bem decoradas. Mas, como em todo o lado, há sempre exceções à regra.

E assim termina um passeio agradável, de pouco mais de uma hora, na Suécia ocidental, junto a um mar interior.

Cardus