Cardus Edição 122, junho 2023
É livre quem deixou de ser escravo de si mesmo.
Séneca
Faz-se um refogado com cebola fresca, alho, azeite (de Vila Real), chouriço (porco preto de Barrancos) às rodelas, coentros, louro e lombinhos de porco (preto) aos bocadinhos. Deixa-se alourar e junta-se as favas (do cabaz), previamente descascadas. Deixa-se a lume brando para aí uma meia hora.
À parte coze-se arroz branco, três de água para uma de arroz, lume brando e muita atenção no final para não deixar agarrar. Convém, também, mexer de vez em quando.
Compor então uma mesa solitária com o prato (já com as favas e o arroz) rodeado dos talheres (faca e garfo ou apenas uma colher - para poupar no detergente), meio Brezeln (a recordar a Alemanha), uma laranja (do quintal longínquo) e um copo pequeno aí com ¾ de vinho branco (do Bom Dia) bem fresquinho.
E depois,
sentar,
pegar no garfo,
picar a fava,
o pedacinho de carne,
e a rodela tisnada.
Juntar
(com ajuda da faca)
um pouco do arroz.
Levantar,
despertar o nariz,
fechar os olhos,
levar à boca (sem pressa)
e saborear o amargo
da fava doce.
E assim,
por uns momentos,
celebrar a vida
(nem sempre fácil)
com o sabor pleno
da liberdade.