Cardus Edição 121, maio 2023
Tira força da tua fraqueza.
Miguel de Cervantes
E era uma roda silenciosa de pessoas com duas no meio, olhos nos olhos, punhos fechados, quais dois felinos procurando o momento certo para o ataque. Da escuridão de todos sobressaía um branco, o único, que se encontrava no meio na roda, olhos no outro, ambos rodando, estudando-se, aguardando …
E era um miúdo que, de repente, viu o pai no meio da roda e a turba à volta segurando o espetáculo, encurralando os contendores, fechando o círculo e o espaço de fuga do lutador que era o único de entre todos.
O miúdo gostaria de ser forte, de saltar para dentro da roda, correr com todos dali para fora, não deixar que alguém beliscasse o pai acossado. Mas não, o miúdo era fraco, pequeno, podia ter chamado os colegas do pai que distraídos, ou com intenção, se refugiavam dentro das casas. Mas não havia tempo, apenas se lembrou que em casa havia uma pistola.
Foi tudo muito rápido. Pistola na mão, foi furar para dentro da roda e apontar a arma à testa do lutador que não se distinguia dos que estavam à volta. Recorda-se dos olhos surpresos e muito abertos à sua frente e, depois, lentamente, o recuo, a turba a dispersar e tudo a voltar ao seu lugar.
Teve sorte o miúdo. Não tivesse sido assim e nem saberia o que fazer. A pistola tremia-lhe nas mãos e provavelmente nem carregada deveria estar.
Estava-se no interior de Angola, anos 60, o então terrorismo, hoje guerra de libertação, começara um ano antes.