Cardus Edição 120, abril 2023

CARDUS


Tenho pena do cinema francês porque não tem dinheiro. Tenho pena do cinema americano porque não tem ideias.

Jean Luc Godard




Amadeo


A primeira vez que fui ao cinema foi em Angola, em 1957, numa povoação chamada Cuanza, um apeadeiro do CFB junto ao rio do mesmo nome. Uma espécie de caixeiro-viajante com uma carrinha e uma máquina de projetar, corria as vilas, negociava um armazém, punha-se à porta a vender bilhetes e projetava num pequeno ecrã portátil o único filme que tinha. Não havia outro, era aquele e mais nenhum, os espetadores apenas estavam interessados nas imagens que corriam pelo ecrã, quaisquer que fossem. O meu primeiro contacto com a maravilha de Lumiére foi, assim, num armazém sentado em cima dum saco de farinha. Alguém deve ter pago o bilhete ou então as crianças não pagavam.

Mais tarde, deixado já o mato e a viver em cidades passei a ver cinema em salas apropriadas, fechadas em Nova Lisboa (atual Huambo) e esplanadas com ecrã de betão ao fundo, em Luanda (se o filme não prestasse, olhava-se para as estrelas ou para a baía de Luanda). Ir ao cinema nesses tempos era um ato social. Já em Portugal nos primeiros tempos continuei a ver algum cinema, até que para aí há uns 35 anos, cortei de vez com idas às salas. Não foi por causa das pipocas e dos respetivos barulhos, foi porque o cinema passou a ser todo igual, vinha todo do mesmo lado (Hollywood), saía das salas sempre aborrecido pelo tempo perdido e pelo dinheiro mal gasto.

Entretanto o cinema começou a aparecer na televisão, mas salvo raras exceções continuei a achar ser tempo perdido ver cinema.

Bom e, então, há dias, fui novamente ao cinema. Resolvi acompanhar alguém que me é muito próximo e que gostava de ver um dado filme. O filme era português, de um realizador que nunca tinha ouvido falar nele (Vicente Alves do Ó) e era sobre Amadeu de Sousa-Cardoso, o nosso grande pintor do modernismo.

O filme estreou em 26 de janeiro pelo que pensei que estivesse disponível em muitas salas nomeadamente nas que me ficam por perto. Nada disso, apenas estava em exibição numa sala em Lisboa, no Cinema City do Centro Comercial do Campo Pequeno, com uma sessão às 13:15, o que me obrigou a ir a Lisboa e almoçar no tal centro comercial, onde são mais as lojas fechadas do que as abertas e onde a restauração é igual à dos outros centros comerciais.

À hora certa o filme (a publicidade) começou a rodar (provavelmente automaticamente) para os quatro espetadores que estavam na sala: dois a meio e o casal cá atrás. Começa então o filme:

Começa bem! Uma espécie de quadro pintado onde se movem pessoas. E as pessoas são o pintor e a mulher a viverem o melhor que a vida tem. A pintura são cenários permanentes, fez bem o realizador em fixar a câmara e filmar apenas o que se pode ver e ouvir através duma porta entreaberta.

E o filme continua assim. Dois diálogos foram para mim marcantes: a conversa da avó (Eunice Munhoz, genial) com o neto e do pai (Rogério Samora, impecável) com o filho com necessidades financeiras.

A época bem retratada, lá está a igreja, o padre, a missa, as rezas e os Pais Nossos recitados de enfiada. E a mãe a pedir ao filho para ele pintar um quadro que ela perceba. O filme vai até Paris, à boémia, às festas, muita alegria e muito vinho. E o amigo que se chama Pablo, é mesmo o Pablo Picasso.

Vamos agora para o Porto, para a exposição do pintor. O salão, os quadros, as pessoas, a burguesia queirosiana toda bem exposta. E a interpretação da vaidade do pintor pelo ator Gabriel Moraes também muito conseguida.

E depois vem, então, a peste bucólica da qual a mulher se safa e o pintor não. E aí temos a morte lenta, também bem tratada pelo realizador, as imagens à cadência do gongo dos finados, o pintor a arfar, a mulher junto dele e, de repente, tudo para. O pintor morreu.

À saída, lá estavam os cartazes dos filmes em exibição para além do Amadeo. Já em casa, dei-me ao trabalho de os registar: Baleia, Creed III, Missing - Desaparecida, O Urso do Pó Branco, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, Múmias, Magic Mike - A Última Dança, Tár, Os Espíritos de Inisherin, Babylon, Um Homem Chamado Otto, Os Fabelmans, Avatar: O Caminho da Água e O Gato das Botas: O Último Desejo. Nada menos do que catorze, todos eles vindos do outro lado do mar e com nomes muito sugestivos. Foi um passar a correr pelos cartazes, depois pelo emaranhado de corredores do centro comercial em direção ao parque da cave, mais não sei quantas curvas e contracurvas para apanhar a saída e, finalmente, cá fora, onde sempre se respira melhor apesar da poluição.

E foi assim que voltei a ver um filme num cinema.

Li alguma critica sobre o trabalho do realizador, nem sempre a mais favorável, algumas vezes mesmo desprestigiante. O que posso dizer é que, passados 35 anos, não saí da sala aborrecido e não dei por mal-empregado o tempo que gastei.