Cardus Edição 117, janeiro 2023

CARDUS


Nem sempre foi fácil, mas valeu a pena!

Francisco Pinto Balsemão
6 de janeiro de 2023





Grande Conferência Expresso 50 Anos


Por um processo de escolha aleatória ou talvez porque sou assinante digital do Expresso há muito tempo, fui convidado para assistir à Grande Conferência Expresso 50 Anos que se realizou no dia 6 de janeiro no Auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa.

Um espetáculo destes não é para se perder, meia hora antes do início já andava pelas imediações do auditório, fui dos primeiros a entrar e a colocar-me num sítio estratégico para poder assistir à entrada dos convidados, na perspetiva de ver as caras conhecidas da TV, dos jornais e das vaidades do burgo.

E foi vê-los a entrar, todos sorridentes, olhos bem abertos na procura de conhecidos para os cumprimentos ou para a conversa que se procura há muito tempo. Eles, os da casa, fardados em tons de azul, fato tradicional e gravata bem colocada, um figurino que não muda há mais de cem anos. Elas, mais soltas, mais variadas no vestir, mas pouco nas cores, estas a caírem para o cinzento esbatido.  Muito mais eles do que elas, uma contagem que fiz em determinado momento deu 22 homens para 8 mulheres, uma estatística a que o Expresso, como jornal de vanguarda, deve estar atento.

Terminado este prato inicial entrou-se então no auditório, onde se destaca o grande óculo que permite ver a margem sul a quem está lá atrás, na zona que nos cinemas antigos se apelidava de geral, e a Torre de Belém, para quem está no palco ou, talvez, nas filas da frente. Ao escriba coube naturalmente a vista do Tejo e dos silos da margem sul.

A conferência foi iniciada com a passagem de um pequeno vídeo com publicidade, provavelmente dos patrocinadores do evento, há que tratar bem quem nos sustenta.

Terminado o vídeo, avivam-se as luzes e do fundo do palco surge um manequim que, em passo profissional, se vai aproximando do microfone: senhoras e senhores a grande conferência dos 50 anos do Expresso vai ter início. Chamo ao palco …

As boas-vindas foram dadas rapidamente pelo diretor do jornal, seguiu-se a abertura realizada por Francisco Balsemão (filho), CEO do grupo a que o Expresso pertence. Da palestra constata-se que o Expresso é um lugar onde deve dar gosto trabalhar, muito variado, muita inovação, muita equipa, muita juventude (o próprio CEO podemos dizer que é jovem) muita flexibilidade para responder minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, à dinâmica do mercado da comunicação e (des)informação. A meio da preleção entra o pai do orador, este, num gesto simpático, saúda-o, “bom dia doutor Balsemão” foi a saudação que toda a gente ouviu.

Seguem-se três atos de rajada. Miguel Sousa Tavares e Henrique Monteiro são entrevistados por Paula Santos, o primeiro militante anti redes sociais o segundo dentro delas para as combater. Segue-se um direto ao Expresso da Manhã onde Paulo Balaia e Ricardo Araújo Pereira trocam de cadeira e de papel. Politicamente correto e liberdade de expressão é um tema que o humorista domina bem e para o qual tem sempre resposta pronta. Mário Centeno responde a seguir a João Silvestre e João Vieira Pereira, os termos são, agora, a inflação e as taxas de juro (até onde poderão subir, ou descer). A temática do Money Money Money não entusiasma muito a assistência nem o autor destas linhas. Felizmente segue-se o Coffee Break, bolinhos, sumos e cafés para quem quiser.

Regresso ao auditório onde o óculo está de novo aberto e a margem Sul bem visível (para os felizardos da geral, claro, os coitadinhos das filas da frente que se contentem com a Torre de Belém). O sinal de retoma dos trabalhos é dado pelo óculo que começa a ser fechado, cortinas chegam ao fundo, as luzes acendem-se, o manequim aparece pela passarela habitual e anuncia a segunda parte do espetáculo.

Tem-se agora “O expresso da meia-noite”, melhor, a gravação do programa que irá para o ar na altura própria eventualmente em direto. Plateia e painel aguardam em silêncio e quietos que alguém, invisível da geral, dê ordem para se começar e assim, num repente, tudo o que estava parado se move. Uma hora de conversa animada e interessante entre sete conversadores. Um vincado analista, afirma que, de acordo com os factos, o futuro não se apresenta muito otimista, o que me leva a concluir que o futuro que os dados indiciam não é o que ele quer.

Segue-se a Comissão Política, David Dinis, Eunice Lourenço e Vítor Matos atacam Mariana Vieira da Silva, ministra da presidência, com a agressividade habitual do jornalismo moderno. Preparada ou impreparada para a guerra, entre sorridos e sérios, a ministra lá foi respondendo aos ataques dos três, tentando levar a conversa para o macro e os metralhas a insistirem no micro.

Pausa então para o almoço. Na porta ao lado do auditório está o “Darwin’s” cujos preços dos pratos começam nos vinte e tal euros pelo que o melhor é voltar a sair e procurar nas redondezas algo mais acessível. Ora aqui está o “Neves”, meia hora à espera pelo prato do dia e saída a correr que o espetáculo estava quase a recomeçar. O “Neves” também não é barato, doze euros foi o preço a pagar por uma imperial, uns bifinhos de porco e um café mal-aviado. Por mais um bocadinho podia ter ficado no “Darwin’s” e, sei lá, às tantas, almoçado ao lado do António Guterres.

A sessão da tarde começa com um vídeo sobre o que é o expresso. Segue-se a Beleza das pequenas coisas onde estão Bernardo Mendonça com Aldina Duarte e Valter Hugo Mãe. Tudo gente bem falante, preocupada e afligida sobre o futuro, onde é mau tudo o que não se enquadra no modelo de bem estar e bem viver que cada um tem para si. Novamente o drama das redes sociais, um perigo para a “liberdade de pensar”, o tema do painel. Da fadista registo uma mensagem positiva, acha que o mundo está muito melhor, foi-lhe bem mais difícil a vida que deixou para trás.

Pode-se fazer agora perguntas ao diretor e a mais dois (painel de três) através do WhatsApp. Meia hora não dá para responder a muitas perguntas, altas individualidades também têm questões a apresentar. Condensar e consolidar perguntas é o que o moderador tenta fazer deslizando o dedo pelo telemóvel, pelo resultado deve ter tido grandes saudades dos tempos em que estas coisas se faziam no papel.

Temos agora a Boa Cama Boa Mesa com três chefes no painel e a constatação que ser chefe hoje em dia tem mais de gestão e marketing do que propriamente de cozinha.

Agora acabou a conversa e canta-se. De microfone na mão, do fundo do palco, surge Dino de Santiago a solo e debita três canções, uma delas meia em português meia em crioulo o que mostra o crescente espaço que a África vem ocupando na cultura portuguesa. E para terminar o cantor pede ao Expresso como jornal influente que é, que inicie uma campanha para mudar o hino, que já não queremos combater contra os canhões, apenas paz e nada de guerras. A África também a crescer na cidadania portuguesa e o expresso atento aos novos ventos que sopram do sul.

Bolinhos, cafés e sumos é o que se segue, o manequim anuncia o Coffee Break. Este demora mais que o tempo previsto percebe-se depois porquê. A dado momento todos os olhos estão apontados para a entrada, de onde emergem Marcelo Ribeiro de Sousa e Francisco Pinto Balsemão, lado a lado, um apoiando o outro, em passo lento, apenas faltando os acordes da marcha nupcial para o quadro ficar perto daqueles que se viam principalmente aos fins de semana nas igrejas. À frente deles e às arrecuas, move-se uma multidão de operadores e respetivas câmaras algumas quase tocando o nariz de quem marcha. Dez metros andados a passo de caracol e finalmente os dois protagonistas descobrem onde se sentar. Ainda umas filmagens e o espetáculo pode continuar.

O inimigo público da semana é produzido durante a conferência. José Luís Nunes o responsável abandonado faz humor com o que fez e com o que acabava de fazer. E todos riam na sala, as maiores gargalhadas vinham da geral.

Mais um vídeo sobre a origem do expresso e chegam então os discursos institucionais. O primeiro de Francisco Pinto Balsemão (o pai), o fundador do jornal.

Não é de muitas palavras o orador nem se demora nos temas. Mal aflora o passado, passa rápido pelo hoje e envia mensagens para o futuro. Um senhor gestor!

Ao orador que se segue as palavras fluem naturalmente, tudo sai direitinho, sem interrupções ou tremeliques. O Secretário Geral das Nações Unidas conhece bem Balsemão, conhece bem o Expresso, no 25 de Abril estava na redação do jornal. É patente a desilusão de Guterres com o estado do Mundo atual, em que tudo regrediu, acredita que hoje já não se podia fazer uma declaração de direitos humanos como a que foi feita há 75 anos. É preciso criar uma nova dinâmica de respeito mútuo e de compreensão de que temos perante nós um problema de todos e que só todos, unidos, o podemos resolver. Para isto o Secretário Geral da ONU continua a contar com o Expresso e com o seu fundador.

E finalmente temos Marcelo Ribeiro de Sousa, o omnipresente nos acontecimentos da terra. E o expresso é dele, e foi ele que o imaginou, e foi o almoço, e foi os convites, e foi a equipa, e foi ele que nunca assumiu a paternidade do jornal, e foi ele (...) e, hoje é o dia do coletivo do Expresso, pois eu …, vamos lá a ver se não me emociono, eu tenho a honra de entregar ao Expresso o título de membro honorário do Ordem da Liberdade pela qual lutou há mais de cinquenta anos.

Era já noite quando o manequim encerrou a reunião. Tempo para sair a correr até Algés para comprar o último Bolo Rei das festas. Um grande espetáculo esta conferência dos 50 anos de Expresso. Obrigado, João Vieira Pereira.

Leio o Expresso há muitos, muitos anos. Independentemente das notícias e reportagens há uma coisa que sempre notei em tudo aquilo que o Expresso faz: uma grande atenção ao país, uma procura constante pelo que de positivo ele tem, um esforço permanente para aumentar a autoestima dos seus cidadãos.