Cardus Edição 117, janeiro 2023
Leve como uma pluma,
alta como uma torre,
quente como um ninho
e doce como o mel,
assim imaginei
desde pequeno
a minha casa…
Ricardo Alberty
A casa feita de sonho
Melhoramentos de Portugal, 1991
Pensaram em renovar um castelo.
Juntaram-se e começaram a trabalhar. Alguém explicou as razões porque era necessário renovar: porque o castelo estava a ficar pequeno para tanta gente que nele queria morar; que era necessário reforçar as paredes e acrescentar novas divisões; que as divisões deveriam ter um responsável e uma porta para a rua por onde se pudesse entrar e sair sem ter de ir dar a volta pela porta principal; que era necessário trazer para o castelo quem estava fora por não ter espaço dentro; que era necessário haver uma divisão para os sábios e responsáveis se reunirem para decidir sobre a guerra e a paz com outros castelos; que …
Organizaram-se em equipa, distribuíram tarefas e desenharam o projeto que difundiram pelos moradores. Fizeram também uns cartazes que colocaram na porta principal para que todos vissem o projeto de renovação. Pensaram mesmo em apresentá-lo porta a porta, mas decidiram que não valia a pena, apenas, ficar a aguardar pelo grande dia, o dia em que o projeto seria aprovado ou rejeitado.
E o grande dia chegou. Numa mesa começaram a ser depositados votos. Havia dois montes um que crescia mais do que o outro. Um era o do Sim, o outro o do Não. A expressão de quem alimentava os montes apresentava-se calma e tranquila o que poderia indiciar que o monte que crescia era o do Não. Mas apenas quem estava perto o sabia. Quem estava longe esperava.
Os votos foram contados e o vencedor anunciado.
…
Tudo não passou afinal dum sonho. A vida segue o seu curso normal, o castelo vai continuar a viver, os moradores gostam dele assim e como está. Foi um sonho lindo, um castelo renovado em sonho.