Cardus Edição 115, novembro 2022



SELOS, essa coisa admirável!




200 Anos da Independência do Brasil


Este selo foi emitido pelos CTT de Portugal numa emissão conjunta com os correios do Brasil a propósito das comemorações do bicentenário da independência do Brasil. Os selos têm as mesmas imagens e arranjo gráfico, apenas os textos diferem um pouco e, naturalmente, a taxa e moeda são diferentes.

É comum em Portugal, e provavelmente em outros países, encontros temporais ente grupos de pessoas cuja vida pessoal ou privada se cruzou em algum espaço de tempo. É mais comum em pessoas já com muita vida no corpo, pois têm muito do passado e pouco do futuro. Os mais comuns são os encontros dos que fizeram a tropa juntos, dos que trabalharam na mesma empresa, dos que estudaram na mesma escola, instituto ou universidade, dos naturais dum certo lugar quando residem fora dele e por aí fora.

Como também vivo há muito, também participo regularmente nestes convívios. O encontro anual dos antigos estudantes do Instituto Industrial de Nova Lisboa, que começou a ser organizado há relativamente pouco tempo, é um dos a que tento não faltar. Todo este grupo estudou e viveu em Angola enquanto colónia, mas, chegada a independência, todo ele se desmantelou e espalhou pelos diversos cantos do mundo: a maioria veio para Portugal, uma grande parte foi para o Brasil, outros para o Canadá, alguns para a América do Norte, poucos ficaram em Angola, alguns por mais uns tempos (meu caso) outros ainda por lá andam. Ao que parece todos se adaptaram bem aos novos lugares e às novas sociedades, tiveram algumas dificuldades ao princípio, mas rapidamente as ultrapassaram, estando hoje todos bem instalados na vida conforme é comum dizer-se.

Encontros de pessoas que estiveram cinquenta anos sem se ver, tem muito de novidade e surpresa. Ninguém está como foi ou prometia ser, as feições acusam as marcas do tempo, as ideias, as maneiras de estar, os valores, está tudo diferente, não só dos que observam com também dos que são observados. A própria linguagem está diferente, fala-se em português, mas a sonoridade já não é a mesma, há novos maneiras de dizer o mesmo. E aqui está, para mim, a parte mais interessante do encontro, a verdadeira Lusofonia, uma música sinfónica que todos entendem, mas que cada um toca com o seu instrumento próprio, de onde sobressaem, o português, o brasileiro e o angolano.

E é a esta parte da língua que a comemoração dos duzentos anos da independência do Brasil me leva. É a única parte que me chama, aquela que me faz dar uma atenção ao Brasil, e aos outros países da Lusofonia, muito maior que a que dou a outros países nomeadamente àqueles que tenho por perto.

O processo da independência do Brasil foi muito diferente do das restantes colónias portuguesas que, cento e cinquenta anos depois, também se tornaram independentes. No Brasil não houve nenhuma guerra de independência, o “grito” foi lançado, o reconhecimento foi negociado com a mediação da sempre presente nos grandes momentos da história portuguesa, a aliada Inglaterra. O Brasil esperou três anos e pagou dois milhões de libras esterlinas para ver a sua independência reconhecida por Portugal, quantia aquela que serviu para o reino resgatar a sua dívida à aliada, pois isto de proteger países também tem os seus custos. Pelo contrário, as colónias africanas tiveram de guerrear para ser independentes, o seu processo de reconhecimento da independência foi, contudo, muito rápido e não tiveram de pagar nenhuma indemnização a Portugal, para desgosto dos muitos que a Portugal retornaram.

Portugal não ficou mais pobre com a perda das colónias, conforme se poderia pensar, está hoje mais concentrado em si próprio, integrado num grande espaço geográfico e económico, o Portugal de hoje está muito melhor do que estava há cinquenta anos, tem uma grande riqueza humana, mais culta, mais técnica, mais aberta, mais afirmada dentro e fora do país. E neste mundo estão também cidadãos oriundos das colónias que para cá vieram fazer pela vida e, como todos os que lutam por uma vida melhor, um dia também estarão bem instalados nela. E do Brasil, o tal país que agora comemorou os seus duzentos anos, vem a maior comunidade de estrangeiros que também aqui trabalham e contribuem para o desenvolvimento.

O Brasil é um grande potentado condenado a, mais ano menos ano, ser uma grande potência económica a nível mundial. É noventa e duas vezes maior que Portugal e metade da América do Sul é brasileira. É também o dono da língua portuguesa, são os seus mais de duzentos milhões de falantes que, conjuntamente com mais umas dezenas de Angola e Moçambique, faz com que seja a quinta língua com mais falantes no mundo e a mais falada no hemisfério sul. E, para quem nasceu e cresceu em grandes espaços, é esta parte da língua portuguesa que o Brasil agarrou e desenvolveu, que me faz bem, que me dá a terceira dimensão, que me alarga o espaço e me dá mais ar.