Cardus Edição 114, outubro 2022
Esta série de três selos foi emitida pelos correios de Portugal a vinte e oito de junho do corrente, a propósito do centenário do falecimento do Beato Carlos da Áustria.
Tinha o nome de Carlos da Áustria associado a um imperador e confirmei que ele foi efetivamente o segundo e último imperador do império Austro-húngaro, aquele império que não durou muito tempo e que abrangia a Áustria, Hungria e parte da Checoslováquia. Causou-me então uma certa estranheza ver o imperador agora designado por Beato e o seu nome aparecer numa emissão de selos portuguesa.
Tudo esclarecido, o imperador afinal é mesmo Beato, foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 2004 e, esclarecida agora a segunda estranheza, morreu na ilha da Madeira onde se encontrava exilado. As imagens dos selos referem-se aos seus últimos tempos de vida na ilha.
Imperador soube que foi, Beato não, não se pode saber o título que Carlos da Áustria teria preferido. Se ainda vai chegar a Santo só o futuro o dirá, também não sabemos se a sua alma espera ansiosamente por esse dia ou não.
Num breve resumo Carlos da Áustria foi proclamado imperador em novembro de 1916. Como sucedeu com a recentemente falecida Rainha Isabel, tal não estava nos seus planos, na calha estava o seu tio arquiduque Fernando, cheio de vigor e saúde até ao dia em que foi assassinado num atentado em Serajevo. Este atentado deu início à primeira guerra mundial e colocou Carlos da Áustria como herdeiro do império.
Mal aqueceu o lugar, dois anos depois da coroação o imperador perdeu todos os títulos e poder e, depois de uns exílios curtos em castelos austríacos, acabou por ir parar à ilha da Madeira, a ideia foi naturalmente colocarem-no num lugar isolado, bem longe do seu torreão natal, para o dissuadir de qualquer intenção ou ação para recuperar, mesmo que parcialmente, o poder.
Chegou assim com a família ao Funchal em 19 de novembro de 1921, a bordo de um navio de guerra inglês, tendo ficado hospedado, primeiro, na Vila Vitoria, na Estrada Monumental e, depois, na Quinta do Monte. O Ex-imperador pertencia à família dos Habsburgos, uma família que ainda hoje desfruta de muito poder, estatuto e riqueza na Europa, família esta que não deixou de o apoiar pelo menos moralmente, alguns mesmo presencialmente, caso do ramo familiar espanhol.
O Beato deve ter sido boa pessoa, mesmo quando imperador, ao que se diz tinha um grande apoio da mulher (uma nobre italiana de nome Zita de Bourbon-Parma, melhor, Zita Maria delle Grazie Adelgonda Micaela Raffaela Gabriella Giuseppina Antonia Luisa Agnese di Borbone-Parma). A eventual bondade nunca lhe rendeu nada, as iniciativas de paz a que se propôs enquanto imperador foram todas malsucedidas.
Na Madeira criou uma grande empatia com a população, era conhecido pelo santo Rei. Aproximava-se das pessoas, irradiava simpatia e bondade, fazia-se acompanhar frequentemente pelos filhos, a quem ensinou o amor pela fé católica, pela paz e pelo povo. Partilhava o pouco que tinha (?) com os pobres que lhe batiam à porta.
Também na Madeira a sua estadia foi curta. Pouco mais de quatro meses depois de chegar, Carlos da Áustria faleceu vítima de uma pneumonia, tinha apenas 34 anos de idade. Com a sua morte acabou-se o exílio, toda a sua grande prole regressou às origens, na ilha apenas ficaram os seus restos mortais que ainda lá estão, os herdeiros assim o querem.
Uma nota final sobre Carlos da Áustria. O ex-imperador tinha a mulher regularmente grávida o que implicou que aos 34 anos, quando morreu, já tinha uma escadinha de oito filhos todos bem parecidos e desenvolvidos. Quase todos eles seguiram os hábitos reprodutores dos pais, pelo que, contas bem feitas, no fim seriam 33 netos que estariam à volta do avô, caso ele ainda fosse vivo e faço ideia quantos estariam caso ele tivesse vivido mais tempo. Manter uma prole desta grandeza não deve ser fácil, títulos e poder podem perder-se, mas a riqueza permanece, é o que diz a experiência de quem já vive há bastante tempo, mais do dobro do ex-imperador, infelizmente com uma prole nada comparável.