Cardus Edição 113, setembro 2022
Esta série de selos foi emitida pelos correios da Roménia em dezasseis de agosto do corrente. Este ano comemora-se o centenário do falecimento de Alexander Graham Bell o inventor do telefone, o pequeno aparelho que revolucionou a comunicação pessoal à distância no século passado, provavelmente foi atendendo a esta efeméride que os correios da Roménia emitiram esta série.
Foi nas telecomunicações e na parte dos telefones que a minha vida profissional começou, estávamos nos finais dos anos 70. A empresa era os CTT, o local Luanda e o país Angola. A independência tinha acontecido poucos meses antes.
Ainda hoje sei de cor o número do meu primeiro telefone. Tinha apenas cinco dígitos, era um telefone automático, o que quer dizer que podia ligar diretamente para algumas pessoas sem ter de recorrer à operadora. Para falar com alguém, levantava o microtelefone, esperava pelo sinal de marcar, discava o número e esperava que atendessem enquanto ouvia o sinal de chamar. Se o correspondente atendesse, o que se notava por um clique no recetor, a conversa fluía, onde quer que o correspondente estivesse, fosse na casa ao lado fosse nas antípodas do planeta. E ouvia-se bem, não era preciso falar mais alto mesmo que o correspondente estivesse longe. No fim da comunicação era só pousar o telefone e mais nada. Não havia botões para tudo e mais alguma coisa como se usa hoje, era só levantar para chamar ou atender e pousar para terminar.
O telefone era fixo, não se podia meter no bolso, ocupava sempre uma posição própria na habitação. Quando tocava, emitia um som metálico estridente produzido por duas campainhas que, mesmo afinadas por baixo, se faziam ouvir por toda a casa ou prédio. Atender o telefone era um ato prazenteiro para a maior parte das pessoas. Havia um problema. Não se sabia quem chamava, podia ser alguém de quem esperávamos uma chamada, podia ser outrem que nos fazia arrepender de ter atendido. Pessoas importantes não atendiam o telefone, mandavam alguém atender e o estar ou não estar dependia da vontade de atender ou não.
O telefone era o aparelho mais desejado, a lista de espera pela instalação era enorme, houve quem esperasse mais de três anos pelo desejado. Naqueles tempos os serviços eram muito especializados, para instalar um telefone primeiro vinha um técnico para passar o fio desde o poste até à habitação, depois outro técnico para fazer a instalação dentro de casa e, finalmente, um terceiro e último (o mais sabichão) que procedia ao ensaio final do aparelho.
Os telefones que os Correios da Roménia apesentam nesta séria são de uma geração anterior à dos tempos em que iniciei a vida profissional. Não eram automáticos, eram manuais, o que quer dizer que a comunicação, a menos que ponto a ponto, só era possível com intervenção dum terceiro elemento, a operadora (ou operador) que, por um sistema de cavilhas, estabelecia a comunicação entre o chamador e o chamado. A operadora podia ouvir a conversa, um entretém para algumas enquanto não apareciam novas chamadas. Os aparelhos são peças artísticas bem desenhadas e decoradas, nada a ver com os retângulos escuros dos telefones de hoje.
Dos seis telefones apresentados, quatro são de origem sueca, o que dá uma ideia da importância que este país teve no desenvolvimento das telecomunicações. Ainda hoje, é sueca uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo (Ericson), são suecos muitos nomes ligados à investigação e desenvolvimento desta área.
As telecomunicações tiveram uma grande evolução nas últimas décadas, os telefones de hoje são peças de grande e elaborada tecnologia. Ultrapassaram há muito a comunicação verbal, asseguram hoje também a escrita e a imagem. Trouxeram o longínquo para o próximo, hoje em dia pode-se fazer sala com alguém que está longe. Por enquanto vemo-nos e ouvimo-nos, não é muito arriscado afirmar que um dia mais sentidos virão. Um dia também o telefone estará dentro de nós, saberá ler os nossos pensamentos e desejos e atuar em conformidade. Não será preciso boca para falar nem orelhas para ouvir, a surdez e a mudez deixarão de existir.
O trabalho fica mais facilitado quando se gosta do que se faz. Para mim foi um grande prazer trabalhar toda a vida nessa grande rede mundial de comunicações à distância da qual, o telefone, é das pontas mais conhecida e visível.