Cardus Edição 112, agosto 2022



SELOS, essa coisa admirável!








Lendas e Mitos (Portugal)


Este selo foi emitido pelos CTT em nove de maio do corrente. Insere-se na temática “lendas e mitos” da séria EUROPA deste ano. As lendas selecionadas para a emissão, cada uma compreendendo um selo e um bloco, foram a Lenda da Caldeira de Pêro Botelho (Açores), a Lenda de Machim (Madeira) e a Lenda da Nossa Senhora da Nazaré (Continente). Pertence a esta última o selo que se expõe e o texto que se segue.

Transcrevo a informação constante da pagela:

Lenda de Nossa Senhora da Nazaré

A salvação in extremis é aquilo com que, muitas vezes, se sonha em momentos de grande aflição. Ou algo a que, em tais circunstâncias, se dirigem as preces dos mais crentes. E foi o que valeu a D. Fuas Roupinho num certo dia de nevoeiro. A 14 de setembro de 1182, o alcaide-mor do castelo de Porto de Mós andava à caça, quando encontrou o que parecia ser um veado. Entusiasmado com a perspetiva de uma boa rês, desencadeou uma fogosa perseguição. De tão compenetrado na tarefa, apenas se deu conta de que se encontrava no alto de uma falésia quando a queda parecia inevitável. Mas, no último instante, o seu cavalo susteve-se nas patas traseiras, que ali ficaram gravadas desde então. A imagem da presa, que seria afinal a do demónio, esvanecera-se.

A D. Fuas Roupinho valera a intervenção salvífica instantânea de Nossa Senhora da Nazaré, após a ela ter apelado em suplica. A imagem da Santa estava escondida um pouco mais abaixo, numa pequena gruta localizada no promontório. Aliviado por tão providente intervenção, o cavaleiro apeou-se, desceu à sacra concavidade, ajoelhou-se e rezou em agradecimento. Pouco depois, mandou erguer uma pequena igreja no alto da arriba, a Ermida da Memória, onde colocou essa imagem.

A relíquia já era, à data, muito antiga. Segundo se dizia, teria sido executada por São José, na original povoação da Nazaré, na Palestina. Alguns séculos depois, teria sido transferida para a Península Ibérica, para um mosteiro perto de Mérida. Ali ficou até à invasão árabe de 711. Tentando protegê-la, o rei godo D. Rodrigo e o monge Frei Romano decidem levá-la consigo na direção da costa atlântica. A tal gruta no alto da falésia foi o local escolhido. E ali ficou até ao milagre que salvou Fuas Roupinho, transitando então para a ermida evocativa que ele mandou erigir, logo em 1182.

Nessa capela, a imagem manteve-se até 1377, quando passou para um novo santuário que o rei D. Fernando I decidira construir e que viria a ser reerguido a partir do século XVII. É ali que, ainda hoje, se venera a representação da Nossa Senhora da Nazaré, cujo culto, graças à popularidade entre as gentes do mar, se espalhou pelos destinos da expansão marítima portuguesa.

In pagela dos CTT

Conheço esta história e o local desde miúdo. A primeira pergunta que fiz foi aonde estava a marca da pata do cavalo. Minha mãe, que me levou ao local, olhou para uma série de buracos na ponta rochosa, apontou para um deles e disse, como se tratasse da maior certeza do mundo: Ali!

E assim me foi resolvido mais um grande mistério divino, assim tão facilmente me tivessem sido resolvidos os mistérios da vida terrena.