Cardus Edição 108, abril 2022
Estes dois selos foram emitidos pelos correios da Bósnia Herzegovina em dez de março do corrente. O tema do selo é a bicicleta.
Nas figuras é possível ver as quatro principais peças de uma bicicleta: o guiador, o selim (não estou bem certo), a roda e a corrente. Uma bicicleta é efetivamente um meio de transporte muito simples.
Para andar de bicicleta é preciso aprender. E a aprendizagem, com ou sem apoio de alguém, é realizada através de um processo evolutivo que começa normalmente com algumas quedas do aprendiz e acaba com o ciclista montado na bicicleta, segurando o guiador e pedalando para onde quer ir e não para onde a bicicleta o quer levar (regra geral para o chão). É um tipo de luta homem-bicicleta em que no início domina o segundo, mas acaba por ser vencido pelo primeiro, como é habitual em tudo o que este se mete.
Pessoalmente aprendi a andar de bicicleta sozinho. Foi no interior de Angola, só havia uma bicicleta na casa e só estava disponível ao fim do dia quando o dono regressava do trabalho. O pedido para dar uma volta era sempre atendido. A bicicleta era de homem (havia bicicletas diferentes para homens e mulheres), tinha o quadro na horizontal, apenas grandes pernas podiam pedalar sentadas ou de pé. Pernas curtas tinham de meter a esquerda por baixo do quadro o que fazia com que o equilíbrio da bicicleta fosse realizado com esta um pouco inclinada. Manter o equilíbrio implicava que nem sempre se fosse para o sítio onde se queria, uma vez foi impossível desviar a bicicleta dum carril pendurado, usado como sino para chamar o pessoal para a ração diária. O choque com o carril deu queda, como não podia deixar de ser, e alertou também meio mundo onde se incluíam desde sisudos a grandes sorrisos. O dono da bicicleta estava no grupo dos sisudos pelo que os treinos ao fim do dia ficaram suspensos por uns tempos.
Diz-se que quando se aprende a andar de bicicleta nunca mais se esquece. Não é bem assim, muito tempo sem ciclar (acho que esta palavra não existe na língua portuguesa, mas é melhor inventar do que deixar aqui o cycling dos ingleses) leva a que se perca alguma destreza e equilíbrio, nota-se pelo tremer do guiador e o zig-zag da marcha quando se recomeça. Mas ao fim de algum tempo lá volta a tranquilidade, certas habilidades é que com a idade se perdem completamente.
O problema da bicicleta é que para se andar é preciso pedalar, o que a descer e em reta não custa muito, mas quando toca a subir, implica que as perninhas comecem a doer e, se a subida for grande (basta uma pequena inclinação), por mais força que se faça no pedal a bicicleta não anda mesmo. Isto, nas bicicletas antigas, porque atualmente existe um novo mecanismo, as chamadas mudanças, que permitem grandes velocidades nas descidas e trepar-se por uma montanha acima com o mesmo esforço físico. Os pedais andam sempre à mesma velocidade, a bicicleta de acordo com a inclinação do terreno. Se esta for muita, conselho de amigo, o melhor mesmo é carregar a bicicleta às costas e subir a pé.
Ainda mais recentemente apareceram as chamadas bicicletas elétricas, levam o nome, mas não são a mesma coisa, têm um motor auxiliar, devem ser vistas do lado dos veículos motorizados.
A bicicleta é um meio de transporte não poluente, pena as sete colinas de Lisboa e seus automobilistas não facilitarem a sua utilização por aqui. É um meio de transporte simpático, não ocupa muito espaço, fácil de conduzir, simples de manter e simples de reparar, extremamente económico, ecológico e duradouro. Há quem veja as cidades do futuro cheias de bicicletas e com poucos ou nenhuns carros. Amsterdão é uma cidade ímpar, bicicletas por todo o lado, os parques perto das estações de comboio estão livres de carros e cheios delas.
Também há muitas bicicletas na poesia. Como este poema de Herberto Helder que a seguir transcrevo para quem o conseguir ler e interpretar, coisa que até hoje não tenho a certeza se já o consegui.
BICICLETA
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder, in “Poemas Completos”
Porto Editora 2014
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