Cardus Edição 107, março 2022
Esta emissão de selos foi emitida pelos correios da Noruega em três de janeiro do corrente integrada nas comemorações do 150º aniversário de Roald Amundsen.
No selo de cima vê-se um campo de gelo e uma pessoa parada num ponto. Não há grande diferença entre o ponto onde está a figura e os outros pontos do espaço. É tudo igual pelo menos fisicamente. O que levou então aquele homem, cuja esfinge também está no selo, a viajar de barco mais de quinze mil quilómetros de Norte para Sul, caminhar mais de 3400 km sobre gelo, nem sempre plano, suportar temperaturas abaixo dos 50º, atravessar nevoeiros intensos e tempestades de gelo, apenas para chegar ao tal ponto, abrir um buraco no gelo, enfiar nele a bandeira da Noruega, montar uma tenda, tirar uma foto com os seus quatro companheiros e regressar a casa tão rápido quanto possível para não morrer congelado?
A resposta como todos sabem é que aquele ponto, que não difere de muitos outros pontos na terra, a geografia diz que é o Polo Sul, um ponto único, que não tem nada de especial, não tem marca nenhuma, apenas as bússolas ficam malucas quando estão junto dele. E, como não constava até à data, que algum homem lhe tivesse posto o pé em cima, o primeiro a fazê-lo ficaria famoso e conhecido para sempre. E foi isto que Roald Amundsen conseguiu, vencendo uma corrida a dois, chegando à meta trinta e quatro dias antes do seu concorrente, um inglês de nome Robert Scott, que perdeu a corrida e a vida naquela competição.
Muito dinheiro e esforço foi gasto para se realizar este feito. Não veio nenhum ganho científico para a humanidade desta “conquista” do Polo Sul, nem a bandeira da Noruega deu direito à posse do local onde foi colocada. Foi uma corrida histórica, e como em todas as corridas, a glória é de quem vence. Nesta coisa da glória ficam apenas os comandantes, os outros quatro membros da equipa é preciso pesquisar para se saber os nomes, dos cinquenta e dois cães que puxavam os trenós só onzes sobreviveram, os restantes serviram para alimentar o comandante, a equipa e os outros cães. Isto para falar só do trajeto no gelo, há também muito mar nesta “conquista” do polo Sul.
Atingida a glória, Amundsen não parou, não ficou a gozar os louros da vitória. Esta deu-lhe credibilidade para continuar as explorações interrompidas no ártico, um local bem mais perto da sua terra. Passou a explorar do ar, os dirigíveis estavam então na moda. Foi o primeiro norueguês civil a tirar o “brevet”.
A glória dá a imortalidade aos nomes, não aos heróis, aos quais a hora da morte também chega, como a qualquer outro cidadão comum. E a Amundsen chegou-lhe, aos cinquenta e cinco anos, no Ártico, numa missão de salvamento de uma expedição perdida.
Há uma certa ironia no feito de Amundsen por ele mesmo referida: O seu fascínio sempre foi o Polo Norte era ali que ele queria ser o primeiro. Acabou por realizar o seu sonho nas antípodas do seu desejo.
Cardus