Cardus Edição 106, fevereiro 2022



SELOS, essa coisa admirável!






A Batalha da Salga


Em 25 de Julho de 2021, dia em que esta série de selos foi emitida pelos CTT, fazia precisamente 440 anos que tinha ocorrido a batalha da Salga, um acontecimento histórico importante durante a ocupação filipina do reino de Portugal.

Dos meus tempos de estudante e das aulas de história ficaram-me muitas batalhas na memória: Aljubarrota, Ourique, Atoleiros, são as que neste momento me vieram à cabeça. Da batalha da Salga não tenho memória nenhuma, ou ninguém me falou dela ou então não lhe foi dado o enfase necessário para a registar no espaço limitado do meu arquivo mental.

Onde fica a Salga? É preciso descobrir o que não é difícil nestes tempos modernos: fica junto a uma baía com o mesmo nome, na freguesia vila de São Sebastião, concelho de Angra do Heroísmo na (agora já sei de cor) ilha Terceira do arquipélago dos Açores.

E como foi a batalha? Leio que há muita lenda e ficção à volta dela, mas parece que um pequeno resumo fica mais ou menos assim:

Uma força naval espanhola, composta por dez navios, oito dos quais galeões de alto bordo, desembarcou na ilha Terceira para acabar com o último reduto da resistência ao rei de Portugal, que na altura se chamava Filipe, também rei de Espanha.  A tropa espanhola entrou pela vila e, como bom invasor intimidador, começou a bater em toda a gente e a incendiar casas e searas, como era normal na época. Uma senhora (Briana de Almeida) não gostou que lhe entrassem pela casa dentro, ferissem o marido e o levassem aprisionado, pelo que se armou de tudo o que poderia servir para defesa (melhor, ataque) e começou a incentivar os seus conterrâneos para resistirem ao invasor, apoiarem a tropa da ilha, e não se deixarem ocupar. Dito e feito, os aldeões juntaram-se e começaram a malhar também nos invasores, provavelmente com os seus utensílios usuais de trabalho, como sejam enxadas, ancinhos e outros com algum poder de corte.

Enxadas contra artilharia pesada e ligeira não têm muitas hipóteses, a resistência estava a esmorecer, alguém (um padre) teve uma ideia genial: ordem para juntar gado. Rapidamente constituiu-se um exército de mais de um milhar de bois e touros que, à respetiva voz de comando, se pôs em marcha em direção aos invasores. Um exército deste calibre em marcha acelerada atemorizou completamente os espanhóis que se puseram em debandada cada qual tentando voltar ao barco tão rápido quanto possível. Nem todos o conseguiram, apenas “não mais de cinquenta” se salvaram, “centenas deles” morreram nos combates ou afogados fugindo do gado ou dos chifres.

A armada humilhada levantou ferro e regressou ao porto de partida. Dois anos depois uma outra voltou à ilha, desta vez os terceirenses não lhe conseguiram resistir.

“Antes morrer livres que em paz sujeitos” é a divisa do brasão de armas da Região Autónoma dos Açores.