Cardus Edição 115, novembro 2022


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”



SÉ DO FUNCHAL


A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça
Cardeal e Poeta Madeirense

Regressei à ilha da Madeira, região onde nasci, para um pequeno período de férias e, como é costume, visitei alguns espaços museológicos…

O primeiro foi o Centro das Artes-Casa das Mudas na Calheta que merece uma visita atenta, numa primeira instância para saborear o belíssimo edifício, projeto do arquiteto madeirense Paulo David, e também para apreciar o acervo existente referente a arte contemporânea.

O Museu da Baleia, no Caniçal, é provavelmente um dos mais inovadores espaços museológicos do género em todo o mundo, e aqui podemos apreciar baleias e golfinhos em tamanho real, o acervo diverso ligado à história da baleação na Ilha da Madeira, os instrumentos utilizados na caça, as técnicas utilizadas, as importantes torres de vigia, bem como a fábrica de transformação deste mamífero marinho.

Embora no espaço público da cidade do Funchal existam muitas das obras do escultor madeirense Francisco Franco, no Museu Henrique e Francisco Franco, podemos apreciar obras de escultura e pintura.

Mas se tivesse que escolher um só local para visitar, escolheria a magnifica Sé do Funchal onde estive dezenas de vezes ao longo da minha vida. Desta vez, detive-me ali demoradamente para apreciar os trabalhos de conservação e restauro que tem sofrido e descobrir detalhes que em anteriores visitas, não tinha valorizado.

Comecei por apreciar a parte exterior da catedral com a cantaria central da fachada contrastando com a alvura dos panos laterais caiados e rasgando-se um portal gótico em pedra vulcânica. É um momento único e imperdível…

Mais deslumbrante ainda, é entramos no templo: deparamo-nos com três naves sendo a central de maior altura estando divididas por arcos quebrados que repousam em pilares com colunas adossadas.

Devemo-nos sentar e observar tudo de uma forma demorada, em especial o teto da catedral, obra da autoria do “Mestre de obras”, Pêro Anes, conta com uma área de mais de 1.500 m2 sendo considerado como a maior obra do género em território nacional e talvez na Europa. É uma das mais complexas armações de carpintaria de alfarge, construída em madeira de cedro insular sendo decorado com pinturas em tons de vermelho, castanho, azul, branco e dourado que após a recente intervenção de limpeza de que foi alvo, se apresenta deslumbrante.

A Catedral do Funchal é considerada como uma das joias arquitetónicas da arte Manuelina, um tesouro do nosso património que podemos e devemos visitar.

António Acciaioli Campos