Cardus Edição 113, setembro 2022
Desde o dia 28 de maio de 1926 até ao dia 25 de Abril de 1974, passaram 17.499 longos dias de ditadura. No dia 23 de março de 2022, assinalámos, assim, mais dias de liberdade do que de ditadura.
Para que não se repitam em Portugal regimes autocráticos, nada melhor do que conhecer a nossa história e visitar alguns Museus, onde podemos testemunhar o que se passou no País durante a Segunda Républica:
LISBOA - Museu do Aljube, Resistência e Liberdade
“Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.”
Manuel Alegre, in ‘Trova ao Vento que Passa’
Instalado numa antiga prisão utilizada pelo regime de Antonio Oliveira Salazar, mesmo perto da Sé de Lisboa, é um Museu dedicado à história e à memória do combate à ditadura e ao reconhecimento da resistência em prol da liberdade e da democracia.
Esta prisão recebeu presos do foro eclesiástico até 1820, mulheres acusadas de delitos comuns até aos finais da década de 1920 e, ainda, presos políticos do Estado Novo a partir de 1928 até ao seu encerramento, em 1965.
No Museu do Aljube, podemos observar um memorial de homenagem aos presos políticos e, ao longo do percurso expositivo, percecionar a caracterização do regime ditatorial português, entre 1926 e 1974, os meios de repressão e opressão utilizados como a Censura, as polícias e os tribunais políticos, a resistência das oposições, a prisão, a tortura, os curros de isolamento.
PENICHE - Museu Nacional Resistência e Liberdade
A Fortaleza de Peniche foi mandada construir pelo rei D. Manuel I no século XVI, transformou-se em prisão política de alta segurança no tempo da ditadura.
Em Peniche estiveram presas 2510 pessoas, entre elas o escritor Mário de Carvalho, o historiador Fernando Rosas, Domingos Abrantes bem como, o dirigente comunista Álvaro Cunhal.
Para que os presos pudessem falar com a família, havia um parlatório onde de um lado, estavam as famílias e do outro lado, os presos. Os guardas punham-se atrás do preso a ouvir a conversa e, durante o período mais duro, qualquer alusão de qualquer tipo que o guarda não gostasse, a visita era interrompida com o argumento de que: “Não pode falar sobre isso, acabou-se”.
Estando atualmente encerrado para obras de melhoramentos museológicos, podemos ouvir Amália Rodrigues a cantar ABANDONO ou Fado de Peniche com letra do poeta David Mourão Ferreira e Música de Alain Oulman:
“Por teu livre pensamento |
CABO VERDE – Museu da Resistência / Campo de Concentração do Tarrafal
O Tarrafal foi um campo de concentração, também conhecido por - Campo da Morte Lenta, está localizado na ilha de Santiago em Cabo Verde, tendo sido aberto em 1936 e encerrado definitivamente no dia 1 de maio de 1974.
A tortura e a fome eram praticadas de uma forma constante, tendo esta prisão sido considerada como "um caminho aberto para a morte num lugar isolado de tudo e de todos".
Entre 1937 a 1944, morreram 30 presos, 45 adoeceram com biliosas e 52 tiveram doenças pulmonares graves, tendo sido contabilizados 2824 dias passados na "frigideira". A "frigideira” era também conhecida pelos presos como - "câmara de eliminação" ou "câmara das torturas", sendo um local de punição onde os presos eram torturados, privados de luz e sob temperaturas que rondavam os 50 a 60 graus, ficando encerrados dias a fio com alimentação racionada a pão ou sopa, depois de terem sido muitas vezes espancados e de onde saíam para a enfermaria.
Devido à forte pressão da comunidade internacional, com a derrota das potências do eixo na segunda guerra mundial, a "frigideira" foi demolida.
Esta antiga prisão, espaço de terrível memória, foi transformada, no ano 2000, num Museu, tendo como objetivo preservar e perpetuar parte da memória histórica do Estado Novo e das lutas pela liberdade e independência dos povos africanos.
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘O Nome das Coisas’
António Acciaioli Campos