Cardus Edição 108, abril 2022


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”



Somos Todos Ucranianos



Num ataque dos invasores russos ao Museu Histórico-Cultural Ivankiv, na região de Kiev, vinte e cinco obras da artista ucraniana Maria Primachenko foram destruídas.

Para termos a noção da importância desta artista, a nível internacional, relembramos que em 2009 a UNESCO lhe dedicou o ano e que Picasso, após visitar uma exposição de Primachenco em Paris, declarou: "Curvo-me diante do milagre artístico desta brilhante ucraniana”.

Em todas as guerras, para além da lamentável morte de pessoas, praticam-se verdadeiros crimes culturais com a destruição massiva de património. São vários os filmes relativos à 2ª Grande Guerra Mundial que relatam como os nazis saqueavam Museus, sendo que algumas das obras lá guardadas foram irremediavelmente destruídas. A lista de crimes em diferentes guerras é extensa. Em 2001 estátuas de Buda que estavam na antiga Rota da Seda foram destruídas, em 2003, aquando da queda do ditador Saddam Hussein, o Museu Nacional do Iraque foi pilhado, no século XIX os invasores franceses roubaram muitos bens culturais e patrimoniais existentes em Portugal. Poderíamos continuar o rol que infelizmente, é longo.

Na Ucrânia, de forma a proteger o património dos bombardeamentos russos, os dirigentes dos Museus bem como, a população tudo têm feito para tentar proteger o riquíssimo acervo cultural deste país.

Na praça da Câmara Municipal de Lviv as quatro estátuas existentes - Afrodite, deusa do Amor, Neptuno, rei dos mares, Diana, deusa da caça e Adonis, um comum mortal, filho de deuses e, depois, divinizado pela sua beleza, por serem demasiado pesadas e demasiado grandes não puderam ser removidas para outro local para as proteger dos bombardeamentos russos e assim sendo, foram cobertas por várias camadas de fibra de vidro, lã de rocha e plástico.  

Uma estátua, em tamanho real, de um Cristo do século XV, com feições pouco judaicas, que repousava num altar exterior na igreja Cristã Ortodoxa Arménia de Lviv deixou o seu pouso de há vários séculos e foi colocado debaixo do chão, numa cave que lhe servirá de abrigo enquanto a guerra não acabar. Os operários passaram mais de uma hora a retirá-la e pousaram delicadamente o corpo esculpido em madeira maciça no solo, tendo-se registado um silêncio reverencial e estranho. As poucas 20 pessoas que estavam no pátio da Igreja Ortodoxa Arménia entreolharam-se, sem dizer palavra, como se se tratasse de um momento solene, como se aquela imagem em madeira tivesse vida.

Estas e outras operações de proteção do património cultural ucraniano, em estátuas, vitrais, pequenos monumentos, arquivos e obras de arte em geral foram feitas em contrarrelógio.

Os ucranianos têm feito o que podem para salvaguardar a sua memória cultural, a sua identidade, tentando garantir a sua preservação e conservação para o futuro.

Somos todos ucranianos.

António Acciaioli Campos