Cardus Edição 107, março 2022


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Nota: texto elaborado com base na rubrica diária que o autor mantém na Rádio Amália: “Sei de um rio, sei de um Museu.”



O Velho do Restelo


(…) Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
"A que novos desastres determinas
de levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
d’Ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?"
Lusíadas, Luís Vaz de Camões


Muitas vezes ouvimos a expressão - “Os Velhos do Restelo” que é utilizada para definir uma pessoa como conservadora ou resistente à mudança com um pensamento centrado no passado e avesso à inovação.

 “O Velho do Restelo” é uma das personagens de Luís Vaz de Camões, no Canto VI da sua obra “Os Lusíadas” e representa uma voz que surgiu na largada da primeira expedição à Índia, com advertências sobre a odisseia que estaria prestes a acontecer. Esta figura revela o pensamento de quem considera a razão contra a ambição e de quem se opunha à proposta de Vasco da Gama de partir com uma armada, à descoberta do caminho marítimo para a Índia, sendo o símbolo dos pessimistas e daqueles que não acreditavam no sucesso da epopeia dos Descobrimentos Portugueses.

Neste episódio narra-se que um ancião - “O Velho do Restelo”, na partida de Vasco da Gama, põe-se ao longe, a criticar as viagens e os ocupantes das naus, sob o argumento de que os temerários navegadores eram movidos pela cobiça de fama, glória e riquezas e procuravam desastre para si mesmos e para o povo português.

Porque estou a falar deste episódio? A resposta é simples - O Velho do Restelo, é uma pintura a óleo sobre tela, datada de 1904, do artista português da época do realismo, Columbano Bordalo Pinheiro, obra que podemos apreciar no Museu Militar de Lisboa, que fica em Santa Apolónia.

Para além desta belíssima pintura de Columbano, este Museu possui uma importante coleção de pintura dos finais do século XIX e início do século XX, com obras importantes de outros artistas tais como, Adriano Sousa Lopes, José Malhoa, Carlos Reis, Veloso Salgado, entre muitos outros.

O Museu Militar de Lisboa é um espaço deslumbrante onde podemos, ainda, apreciar a importante coleção de peças de artilharia em bronze, considerada como uma das mais completas a nível mundial, bem como, a coleção de azulejaria constituída por vinte e seis painéis de azulejos dos séculos XVIII, XIX e princípios do século XX, representando factos notáveis da nossa história entre 1139 e 1918, da autoria dos artistas José Estêvão Cancela, Vítor Pereira, Gustavo Bordalo Pinheiro ou Leopoldo Batistini.

António Acciaioli Campos