Cardus Edição 105, janeiro 2022


VISITAR MUSEUS FAZ BEM À SAÚDE…

António Acciaioli Campos

Presépios e outras obras museológicas


A Adoração dos Magos, pintura do artista Domingos Sequeira (1828)

Tornou-se costume, em várias culturas, montar um presépio quando é chegada a época de Natal.

O primeiro presépio terá sido montado em argila por São Francisco de Assis em 1223. Nesse ano, em vez de festejar a noite de Natal na Igreja, como era hábito, o Santo fê-lo na floresta da cidade de Greccio, em Itália, para onde mandou transportar uma manjedoura, um boi e um burro, para melhor explicar o Natal às pessoas comuns, camponeses que não conseguiam entender a história do nascimento de Jesus.

O costume espalhou-se por entre as principais Catedrais, Igrejas e Mosteiros da Europa durante a Idade Média, começando a ser montado também nas casas nobres e régias e já durante o Renascimento.

Foi cerca de 600 anos depois, já no Século XVIII, que o costume de montar o presépio nas casas comuns se disseminou pela Europa e depois por todo mundo.

O Presépio português alcançou generalizada difusão a partir do século XVII. Desde então, os artistas mais requintados e melhor cotados eram objeto de encomendas de presépios para palácios de nobres e soberanos, com representações em cera e marfim de que se perdeu completamente a pista, tal o descaminho que levaram.

Mas o verdadeiro e grande desenvolvimento do Presépio em Portugal deu-se no século XVIII com o embelezamento da Basílica do Convento de Mafra pelo rei D. João V. Com esta ação, nasceu uma autêntica escola de barristas em Mafra.

Há muitos presépios expostos em Museus e Igrejas em Portugal, das quais refiro alguns:

A grande coleção particular do Major-General Fernando Canha da Silva e sua mulher Fernanda Canha da Silva, encontra-se exposta nas duas galerias na Igreja de São Francisco em Évora, onde podemos apreciar centenas de presépios nacionais e internacionais de inúmeros artesãos, variadas composições de diferentes materiais.

No Convento de Madre de Deus, inserido no Museu Nacional do Azulejo, podemos encontrar um dos presépios mais importantes existentes em Portugal, considerado como o mais antigo presépio barroco português composto por 42 figuras, algumas divinas e outras personagens populares, em barro estofado, policromado e dourado, de meados do século XVIII com tamanhos entre os 20 e os 70 centímetros de altura, atribuído a Dionísio e António Ferreira.

Outro presépio importante é o existente na Basílica da Estrela em Lisboa, sendo composto por quase 500 peças e considerado como um dos maiores do país, medindo cerca de cinco metros de largura, quatro de altura e três metros de profundidade. Foi concebido no fim do século XVIII pelo artista Machado de Castro, a pedido da rainha D. Maria e foi o primeiro em Portugal a incluir a adoração dos Reis Magos.

No Museu Nacional de Arte Antiga podemos admirar o chamado Presépio dos Marqueses de Belas, obra do início do século XIX dirigida pelo escultor português Barros Laborão, medindo cerca de três metros de altura e quatro de largura. É uma peça de referência do Museu Nacional de Arte Antiga.

Ainda no Museu Nacional de Arte Antiga podemos e devemos apreciar a pintura: “A Adoração dos Magos” obra de Domingos António Sequeira, considerada como sendo uma das obras mais representativa do romantismo português. O quadro expõe o momento em que os reis Magos obsequiam o menino Jesus sendo composta por personagens que parecem saídas de contos das mil e uma noites. Envolta numa atmosfera dramaticamente pintada, o céu adquire uma importante dimensão com a luz vinda do astro rei, dando especial destaque à cena essencial: o nascimento de Jesus.

Sobre esta importante obra não posso deixar de referir a curiosidade, de ter sido propriedade de um particular que ao coloca-la à venda, despertou o interesse do Museu que não tinha verbas para adquirir, tendo-se recorrido a uma solução, inédita em Portugal, mas comum no estrangeiro: promover uma campanha de recolha de fundos sob o lema: “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo”. Esta iniciativa ultrapassou os 600 mil euros necessários para a aquisição desta obra e, assim sendo, já a podemos apreciar no belo Museu Nacional de Arte Antiga.

Não nos esqueçamos que… mesmo em época de Natal - “Visitar Museus faz bem à saúde”!

António Acciaioli Campos