Cardus Edição 114, outubro 2022

Malisca



A terceira viagem


Treze anos acabadinhos de fazer e eis que se impunha a terceira grande mudança na sua vida. A primeira tinha sido aos quatro, assim que a mãe fica viúva, e a segunda aos seis, quando deixa a cidade natal para ir viver em terras do planalto angolano. Aqui, inicia a escola primária e completa os dois primeiros anos do liceu, numa situação familiar pouco tranquila.

Junho aproximava-se do final, com o seu inverno fingido, como é normal nos países do hemisfério sul. É chegada a hora do adeus. Estava a ultimar o ano letivo em casa de uma família, que não era a sua, e com a qual nunca trocou sorrisos, mimos ou afetos. Arruma as roupas e as tralhas numa pequena maleta e aguarda que a venham buscar. Desta vez, o destino é para norte, cerca de 600 Km de distância. Para trás ficam os sonhos que a infância desenhou e, em cada esquina da cidade esconde, esmorecida, as histórias da sua meninice.

Rumo ao desconhecido, é com alguma expectativa que inicia a longa viagem, juntamente com a família, composta por sete pessoas. Todos acomodados no jeep Land Rover, dividem o espaço com as imbambas que se amontoam de lado, por cima e no chão do carro. As galinhas, aconchegadas umas às outras, vão em cima do tejadilho, no meio de outros caixotes com louças, roupas e tarecos.

Viajar de carro é para si uma alegria. Como se assistisse a um filme a desenrolar-se à sua frente, deixa os olhos perderem-se nos campos que se estendem por quilómetros de tela bordada, ora com flores de algodão, ora com plantas de sisal ou café, a tocarem o horizonte, enquanto a brisa do vento acaricia as folhas das árvores numa dança ritmada como se fossem cânticos.

 O escritor japonês, Haruki Murakami, no seu livro de memórias enquanto corredor de fundo, descreve a corrida como um momento de profunda introspeção onde a mente se confunde com o espaço e os dois se transformam num só. Também ela, ao viajar de carro, se imbuía nas paisagens como se fizesse parte delas, deixando o pensamento confundir-se com todos os lugares numa simbiose perfeita.

Já o dia ia longo quando a entrada da cidade se exibe de rompante. Tudo é novo e desconhecido, o ar é cinzento, quente e húmido. Os prédios, altos, anunciam a grande urbe, mas escondem sujidade e muitas, muitas baratas. As ruas, cheias de gente apressada, estão vestidas de poucas árvores. Árvores diferentes, como os Imbondeiros, de troncos reboludos e poucas folhas, dispersos por aqui e além. Também as Palmeiras, altivas e elegantes, serpenteiam algumas avenidas e fazem fila a circundar a baía da cidade.

Em estado de choque com o mundo novo apresentado à sua frente, percebe que longe ficaram as suas origens e chora com saudades da próxima viagem.