Cardus Edição 109, maio 2022
A casa número três, para além de ficar na rua da frente, sem nenhum muro a barrar os olhos, tinha janelas para o exterior. O hall de entrada era a sala e as cinco portas, uma em cada parede, davam acesso aos outros compartimentos. A cozinha, equipada com um lava-loiça e uma pequena bancada, exibia o fogão a gás com duas bocas, uma melhoria que veio substituir o velhinho a petróleo. A casa de banho espreitava de um dos cantos, aprimorada com uma sanita, um lavatório e um chuveiro de água fria.
Apesar da pouca altura, a casa engrandecia com o quintal que, ao correr toda a sua frente nos cerca de oito metros por três de largura, se tornava num espaço pretensioso e apetecido por todos os que viviam encurralados nas exíguas casas das ruas traseiras. Aqui, um recanto fantasioso, delimitado por uma treliça construída com ripas de madeira, abraçada a uma buganvília, aconchegava todos os sonhos nas tardes lânguidas de fim de semana.
A casa número três era a segunda casa a contar da esquina e o portão escancarava-se para a rua. Uma rua de terra batida que se vestia de diferentes formas e cores em compromisso com os ventos vadios que, ora traziam chuva e a preenchiam de poças de água, ora traziam poeiras finas e a pintavam toda de vermelho.
Neste bairro de gente pobre, as casas da rua da frente escondiam as suas mazelas, enfeitavam-se com trepadeiras floridas que subiam e desciam pelas paredes, qual jardim vertical de um luxuoso condomínio, juntamente com portentosos vasos que ostentavam as mais garbosas flores: Brincos de Princesa, Antúrios, Amores-Perfeitos, Dálias e Margaridas entre muitas outras.
A casa número três destacava-se na rua pela beleza e pelas vaidades fingidas, todas as que a pobreza permitia.