Cardus Edição 108, abril 2022

Malisca



Aprendizagens


Aos dezasseis anos o coração transborda de sonhos. De manhã, à tarde e à noite, o pensamento centra-se em aneladas conspirações e a alma cresce, levita e ausenta-se do corpo como se fosse um avião supersónico a percorrer em segundos todos os lugares da Terra.

Era esta a sua idade quando começou a viver num musseque dos arredores da cidade, paredes meias com um aterro sanitário. A mãe, só e zangada com a vida, foi aqui que encontrou um abrigo à altura da sua carteira. Uma casa minúscula composta por sala e quarto sem janela e por casa de banho e cozinha no exterior: dois cubículos abraçados, um com uma latrina e um chuveiro de água fria, o outro com uma pequena bancada a segurar o fogão de petróleo, os alguidares, as panelas e as loiças. A torneira embeiçava a parede de fora, engalanada com um balde multiusos a servir de lavatório. Ao lado, uma mesa de plástico e três cadeiras completavam o ornato. Esta tipologia replicava-se por uma correnteza de casas iguais, todas pegadas, com um pequeno muro a delimitar os exíguos quintais.

Neste bairro, as famílias eram de muitas cores e partilhavam as misérias das suas vidas. As ruas estreitas, sem passeios e de terra batida, guardavam as águas da chuva em poças que alegravam as brincadeiras das crianças nos dias quentes.

A humidade, o calor e o cheiro do lixo, empilhado atrás das casas, atraía ratos e baratas que, aos montões, se instalavam nas habitações como se fizessem parte do agregado familiar. Os tetos, de telha à vista, nem sempre impediam a entrada da chuva e, muitas vezes, misturada com a urina das ratazanas que corriam pelas traves umas atrás das outras, molhava as camas e as almofadas.

Todo este cenário fez parte da sua vida durante dois longos anos. Tempo importante para o crescimento do seu interior. Tempo precioso para o fortalecimento das suas convicções. Tempo necessário para a aquisição da força que transformou muitos dos seus sonhos em realidade.