Cardus Edição 107, março 2022

Malisca



A minha primeira máquina de lavar


1980, 24 anos, Luanda, 3 filhos com idades compreendidas entre os 11 meses e os 3 anos, muito calor, baratas por todo o lado, lojas com prateleiras vazias.

Com esta “história” da Rússia-Ucrânia, as minhas memórias mergulharam fundo trazendo à tona os anos vividos em Angola, principalmente os últimos, logo a seguir à independência. Na realidade nasci, cresci e vivi num país em guerra pela sua libertação, uma guerra longa e dolorosa cujo expoente máximo, tenaz por alguns anos, centrou-se no período pré e pós-independência.

De repente a vida deixou de seguir o caminho habitual, qual bússola desnorteada, tudo se alterou e os dias pintaram-se de cores inquietas e duvidosas. O que era deixou de o ser e o que não era passou a ser.

Com a debandada das gentes que correram para o aeroporto, fugindo pela ponte aérea Luanda-Lisboa instalada num ápice, prédios e apartamentos esvaziavam-se em catadupa com a mesma rapidez com que eram ocupados pelas populações dos subúrbios que carregavam consigo as imbambas, os porcos e as galinhas.  

Em três tempos a água deixou de correr pelos canos com a força suficiente para subir aos andares. Só os moradores do rés-do-chão beneficiavam deste líquido precioso e aproveitaram desde logo para arquitetar um lucrativo negócio vendendo água a balde como se fosse ouro. Esgotaram-se as bombas de água na cidade e engendraram-se as mais refinadas engenharias para conseguir levar até casa tão valioso bem.

Também a eletricidade se tornou instável, falhando, volta e meia, dias seguidos, o que obrigava à confeção rápida de todos os géneros congelados, única forma de se aproveitarem. Lembro-me das horas passadas em longas filas, desordenadas e em jeito de comício, quando as prateleiras de um supermercado se engalanavam com alguns bens alimentares. Era uma luta árdua, penosa, para se conseguir comprar um quilo de carne ou um frango, já descongelado, que seria o sustento de muitos dias, dividido e guardado, em pequenos saquinhos, no congelador do frigorífico ou geleira como se diz por lá! Só com alguma arteirice e algum malabarismo era possível chegar ao fim da jornada bem-sucedido, sem ter que voltar para casa de saco vazio como a maioria dos presentes.

Também os campos deixaram de florir e de fornecer alimentos como antes. Agora, como se fossem sementes de ginguba, enterravam-se minas de guerra por todas as lavras e por todo o lado. Estes campos, outrora gordos de milho, batata-doce e jimboa, a ondular alegremente com os beijos trazidos pela brisa do vento, tocavam o horizonte e enchiam as barrigas das crianças. Tornaram-se campos amaldiçoados, traídos pela ganância dos homens e agora, enfurecidos e revoltados tiram-lhes pernas, braços e até a vida quando por lá passam.

No meio disto tudo, alguns corações mingam de tristeza e outros incham de amor e solidariedade pelo próximo. Foi com esta vivência que aprendi a ler a minha essência e a essência das outras pessoas. E isto só é possível quando a vida nos põe à prova e ficamos nus com a alma a sangrar de dentro para fora.

Mas a vida continua e aprendemos, entre muitas outras coisas, a relativizar e a enfatizar aquilo que realmente conta. E foi precisamente nesta altura que tive a minha primeira máquina de lavar roupa. Em segunda mão, um achado que me iria libertar da lavagem manual de trinta fraldas de pano, por dia, das duas crianças mais pequeninas… Mas a máquina já acusava as maleitas dos anos que tinha e, por isso, algumas funções estavam avariadas. Salvou-a o marido, engenheiro de profissão e especialista em artifícios que, sem demora a pôs a trabalhar. À falta do termostato, o controle do aquecimento foi engendrado através de uma ligação à campainha da porta que tocava, quando a água atingia determinada temperatura, para eu a ir desligar. A água tinha pouca pressão, pelo que era preciso estar atenta e colocar alguns litros da reserva armazenada em garrafões, enchidos na torneira do rés-do-chão do prédio e transportados escada acima escada abaixo. Numa tábua de madeira, pendurada na parede que encostava a máquina, estava todo o mecanismo que no seu tic tac contínuo, como se de uma orquestra se tratasse, comandava todo o processo da lavagem.

Os tempos passaram, hoje tenho uma casa apetrechada com os mais modernos e sofisticados eletrodomésticos que, apesar de necessários e úteis não representam mais do que isso. Em nada se comparam à minha primeira máquina de lavar. Toda ela transbordava magia e encanto que me dava uma alegria maior e me enchia de alento e esperança num futuro de paz.