Cardus Edição 106, fevereiro 2022
Fechou os olhos e percorreu a estrada já longa da sua caminhada. Por ladeiras, picadas e carreiros, nem sempre retilíneos nem fáceis de galgar, eis que chegara ao cume da montanha da sua vida.
Sentada, de braços abertos ao sol, deixou-se abraçar pela brisa meiga e doce da manhã. Deixou que o pensamento a levasse aos lugares da sua meninice e cantou baixinho a música da sua escola, a música que os meninos cantavam aos sábados de manhã, dia de atividades lúdicas que nunca esqueceu. E a seguir sentiu, como se estivesse lá, o cheiro da terra molhada depois de uma grande chuvada. Recordou o quintal onde brincava, cheio de tabaibos maduros que perfumavam o ar e despertavam os sentidos.
Umas atrás das outras, tinha presente todas as cenas que compuseram os capítulos mais importantes da sua existência. Momentos marcantes como aqueles em que a crueza da realidade nos rouba as fantasias de criança e nos faz mais fortes nas intempéries da vida. Crescem-nos raízes que nos prendem à terra tal como as raízes das árvores que as erguem e as mantém de pé!
Com vinte e seis anos atravessou o oceano, em busca de uma vida melhor. Para trás ficaram as histórias vividas em menina, os sonhos desenhados na adolescência e na juventude, para trás ficaram as estrelas que teceram a essência da sua alma.
Reconhecendo que era inevitável este abandono, procurou adaptar-se a uma nova vida, a novas gentes, a novas paisagens e às novas estações do ano. Procurou aceitar, sem pestanejar nem fraquejar, todo o futuro que lhe era oferecido.
O tempo passou depressa, como num abrir e fechar de olhos. Teve uma vida melhor, mas não teve o melhor da vida.
Apesar de não deixar que as sombras das goiabeiras se validassem de únicas e exclusivas para refúgios de calor e, apesar de reconhecer nas espécies mediterrânicas atributos de tamanha importância, nunca conseguiu esquecer os campos de sisal, de café e de algodão que se estendiam em mantos até se cruzarem com o horizonte. Nunca se conseguiu esquecer da algazarra das mulheres, com os filhos às costas e as quindas à cabeça e que a acordavam aos domingos de manhã cedinho a vender, de porta em porta, loengos, maboques, lochas amarelas e lindas que traziam das suas sanzalas! Ainda hoje guarda consigo os sabores da blunga e da quissangua de milho que nunca mais bebeu.
O seu pensamento não deixa de vaguear pela terra que a viu crescer numa procura incessante da parte que lá deixou de si. E que desde aí nunca mais se sentiu por inteira!