Cardus Edição 105, janeiro 2022
Enquanto o camaleão tentava fugir dos seus braços, preso pela admiração e fascínio de quem o segurava, colorindo-se com os tons da sua roupa, num instinto de proteção e sobrevivência, ela deixava a sua imaginação voar e viajar pelo mundo, qual passarito a saltitar de galho em galho e a deixar-se planar, a apreciar lá do alto a vida que se vive na terra.
Tinha seis anos e passava longas horas sozinha no cimo do morro perto da casa onde vivia. De lá avistava o Mundo. Imaginava o mar que ainda não conhecia e sonhava, sonhava! Via-se a enrolar nas ondas e a desenrolar-se areal acima, sentia a água a empurrá-la quase a fazer-lhe cócegas, ouvia o estilhaçar das bolhas de espuma a rebentar no seu vai e vem e, de olhos fechados, lia as notas musicais que dançavam no ar e compunham uma sinfonia acompanhada dos sabores e dos cheiros da maresia. Assim imaginava o mar, assim se imaginava na praia.
As férias estavam à porta e com elas a possibilidade de concretizar sonhos! E foi tanta a excitação que colocou em dúvida se estaria com explosões de imaginação ou se estaria mesmo a viver uma realidade. Iria conhecer o mar. E mais, iria fazer a sua primeira viagem de comboio. Um dia inteiro a atravessar os 246Km que separam o Lubango de Moçâmedes, ao longo da Serra da Leba e do deserto do Namibe.
Pronta para iniciar a jornada, não tinha a mais pequena ideia do que a esperava. Todo o caminho lhe pareceu irreal. As paisagens transformavam-se em cada momento, como se de um filme se tratasse, com as suas belezas impares, quase irreais. Já tinha ouvido falar na planta carnívora, a Welwitschia Mirabilis, acreditando mesmo que comia as pessoas desprevenidas que se aproximassem dela… mas vê-la ali tão perto de si, através da janela do comboio, fez um arrepio percorrer-lhe a espinha e colar-se à alma, sensação que ainda hoje guarda na caixinha das recordações bem como todas as imagens que a natureza a presenteou. As avestruzes a enterrar a cabeça na areia pelo aparecimento do comboio intruso, as zebras em família, passeando ao longe, girafas elegantes e de pescoço longínquo também desenharam quadros que cobrem de alto a baixo as paredes da sua memória.
Depois de tanta emoção e chegada ao destino, onde iria passar as férias do mês de março, que na altura eram de trinta dias, em casa dos padrinhos, tinha o mar à sua frente! Aguardava com ansiedade o instante de se atirar para a água e desvendar todos os mistérios que os sonhos trataram de encantar.
E o dia finalmente chegou. Chegou devagar, sem pressa e sem deslumbre.
Tudo o que imaginou não coube em nenhum lugar. Não era verão e o dia estava cinzento, a água estava fria e as ondas não eram brancas e não faziam cócegas! O cheiro a maresia não acompanhou nenhuma sinfonia e na areia molhada sentiu falta de outras crianças para com ela construir castelos. A desilusão marcou presença e aí aprendeu que a vida tem muitos sabores, uns mais doces do que os outros, uns que dependem das circunstâncias ou expectativas e outros não!