Cardus Edição 116, dezembro 2022
NATAL
Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança.
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que esses tempos idos
Também era.
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.
Miguel Torga
S. Martinho de Anta, 25 de dezembro de 1982
In Miguel Torga, Diário Vols. IX a XVI , pág. 1473
E aí temos mais um Natal, a grande festa dos católicos que todos agarraram e que para muitos é o Dia da Família. O dia em que as famílias se juntam, trocam presentes, confraternizam e onde, por uma vez, parece que tudo está bem.
A grande mesa cheia de iguarias, rodeada de gente bem-disposta, uma árvore de plástico no canto da sala carregada de presentes, um eventual presépio noutro canto e uma lareira acesa, é um quadro muito comum na noite de Natal. Não é assim em todo o lado. O que há a mais em alguns lares, há a menos noutros, o calor aconchegador duma lareira não chega a todos, a muitos não chega mesmo calor algum.
As caras sorridentes à volta da mesa escondem dramas, alguns apenas porque existe uma noite de Natal. Há sempre quem não está, quem gostaria de estar e não está, quem está e não queria estar, quem não está e não quer mesmo estar e assim por diante. Estes dramas acabam, ainda bem, por adormecer, quando chega o bacalhau divinal, a sobremesa especial, o tinto de reserva, a rabanada ainda quentinha, as farófias apetitosas e o bolo-rei imperial.
E depois vêm as prendas, o prato forte das crianças, tantas mais quanto mais felizes os pais estão. E muitas delas é rasgar o papel, abrir a caixa, olhar e atirar para o lado. E no dia seguinte por o lixo todo ao lado do contentor cheio e a abarrotar.
O Natal não é assim em todo o lado. É o que me rodeia, não foi sempre assim, mas foi ao que me habituei.
Há também o Natal na rua. Onde estão aqueles que fazem com que não fiquem totalmente desertas. E que veem através das janelas iluminadas um pouco do viver da sociedade com que se zangaram. E para quem o Natal é apenas mais um dia a juntar aos que já têm.