Cardus Edição 115, novembro 2022
Para nos mantermos bem é necessário comer pouco e trabalhar muito.
Aristóteles
A casa levou cerca de um ano a construir. Uma grande vivenda com cave, rés do chão, primeiro andar, garagem para dois carros e espaço para uma piscina futura. Uma bela casa.
Tudo começou com o nivelar do terreno. Uma máquina, uma buldózer, em pouco mais de um dia pôs o terreno todo direito. Apenas houve que alisar alguns cantos e foi por aqui que o seu trabalho começou, com todos os outros, segunda a sábado das oito às dezoito.
Atacaram-se depois as fundações, pilares e vigas. Foram uns dias valentes a dobrar ferro, encaixar na cofragem e encher com betão. Já não usou a betoneira, o betão veio no camião da empresa de betonagem onde um familiar do patrão trabalha.
Passou-se seguidamente às paredes. Tijolo sobre tijolo, foi vê-las a subir rapidamente do fundo até ao teto, paredes duplas com um espaço no meio preenchido com placas de esferovite para aumentar o isolamento. Nesta altura encastraram-se também as armações para as portas e janelas, a casa crescia e ia ganhando forma e espaço.
Antes do reboco foram feitas as canalizações para a água, gás e eletricidade. Nas canalizações da eletricidade deixou um fio auxiliar para facilitar a passagem dos cabos. Só depois foram rebocadas, estucadas e pintadas.
O telhado veio a seguir, com a colocação, primeiro, das travessas de cimento e, logo a seguir, das telhas portuguesas, as tais de que ele mais gosta. Tudo direitinho, as chaminés brancas emergindo do telhado da cor da terra.
Vieram depois as portas e janelas, as portas de madeira natural e as janelas de vidro duplo para melhorar o isolamento. Pequenos ajustes tiveram de ser feitos em algumas portas pois nem todas cabiam nas armações.
A seguir passou-se cabo com ajuda do eletricista que indicava a quantidade e as cores dos fios a passar. Depois foi montar e ligar interruptores, tomadas e pontos de luz onde mais tarde se pendurariam os candeeiros.
Foi então altura de alisar o chão para colocar as placas do chão flutuante conforme estava no projeto. A colocação das placas era uma maravilha. Era só encostar, fazer força para baixo, ouvir um clique e imediatamente as placas se uniam numa junção perfeita, sem folgas, difícil era perceber onde uma placa terminava e a outra começava.
Vieram depois as loiças para a cozinha e sanitários. Tudo novo e a brilhar, foi aparafusar, chumbar, ligar torneiras e esgotos.
E no fim foi limpar todo o pó de cimento e a sujidade, tirar os papéis e todos os restos da construção, deixar tudo como deve ser para o grande dia.
E o grande dia chegou rápido. Todos mais ou menos alinhados viram-nos chegar. Num grande carro, o marido, a mulher e os dois filhos. Todos bem vestidos e decorados, sorrisos nas faces cor de bronze. Inspecionaram tudo, reclamaram sobre uns cantos menos arredondados e outros pormenores que o engenheiro foi apontando. Os filhos discutiam quem ia ficar com o quarto virado para o jardim.
Nesse dia não fez nada, o que o patrão não estranhou, pois já lhe conhecia o hábito. Postado timidamente a um canto olhava para a família que reclamava e apenas reparava nele por estar parado sem fazer nada. E, como sempre sucedia nestes dias, passaram-lhe umas coisas pela cabeça que ele até tem vergonha de dizer. Mas não fez nada. Olhou para cima, para o Céu, onde lhe dizem que está alguém que regula tudo o que se passa cá no planeta e arredores, esperou um bocadinho e, a seguir, uma voz suave, vinda de muito longe, entra-lhe pelo ouvido e diz-lhe baixinho e devagarinho, então, meu amigo, o que é isso, não sejas invejoso, não estás vivo, não comes e dormes, não tens emprego, para que é que querias uma casa como esta, com todas estas divisões? Volta lá para a tua barraca, a vida é assim, todos trabalham, os trabalhos é que não são todos iguais.