Cardus Edição 114, outubro 2022
Quando um homem se põe a caminhar
deixa um pouco de si pelo caminho.
Vai inteiro ao partir repartido ao chegar.
O resto fica sempre no caminho
quando um homem se põe a caminhar.
Fica sempre no caminho um recordar
fica sempre no caminho um pouco mais
do que tinha ao partir do que tem ao chegar.
Fica um homem que não volta nunca mais
quando um homem se põe a caminhar.
Vão-se os rios sem margens para o mar.
Ai rio da memória: só imagens.
O mais é só um verde recordar
é um ficar (sem as levar) nas verdes margens
quando um homem se põe a caminhar.
Manuel Alegre – 30 anos de poesia”. Lisboa: Dom Quixote, 1995.
Diz-se que o ato de caminhar é salutar para o espírito e para o corpo. Os médicos acrescentam ainda que traz diversos benefícios para a saúde, como a melhoria do sistema cardiovascular, diminuição dos sintomas de stress e ansiedade, fortalecimento muscular e mais alguns que me dispenso de colocar aqui porque a lista já vai longa.
Nos meus tempos de menino de mato (Angola, anos 50) as deslocações do dia a dia eram feitas a pé, pelos chamados caminhos. Era pelo caminho que se ia à horta, ao rio, a um ou outro quimbo*, ou a algum comerciante do mato. Os caminhos eram as ruas da selva. Apareciam naturalmente, criados pelo passar sucessivo de muitos pés pelos mesmos sítios. Seguia-se por eles em fila indiana, à frente seguia quem sabia o caminho, atrás seguia quem confiava no que ia à frente. Para se ir a um sítio qualquer era assim importante saber-se o caminho ou, então, ir com alguém que o conhecesse. Não era uma questão de orientação, o problema é que a rede de caminhos se cruzava muitas vezes e seguir por um caminho errado podia provocar alguma ansiedade, tanto maior quanto o tempo a passar e a noite a chegar. Até o voltar para trás podia não ser fácil. Os caminhos serpenteavam pela selva, raramente eram a direito, era preciso caminhar atento, outros caminhantes como, por exemplo, as cobras, às vezes apareciam a saudar quem passava. Caminhei muito por eles, muitas vezes descalço, os sapatinhos deixados escondidos ao pé duma árvore, de onde eram recuperados no regresso.
Dezenas de anos depois, agora já noutro tipo de selva, continuei caminhando, mas agora por outros tipos de caminhos, muito diferentes dos africanos. Chamam-lhes “passeios”, faixas empedradas que seguem ao lado de uma coisa que se chama estrada, por onde circulam umas máquinas de guerra chamadas carros, a que há que ter uma grande atenção, pois além de muitos, qualquer delas é muito mais perigosa que a maior da parte das cobras dos caminhos africanos. Aqui já não caminhava para ir a algum lado, era apenas uma volta, a volta dos tristes como ouvia dizer, descer do prédio, saco de lixo na mão, cem metros até ao contentor, uma volta para ver as montras que mudavam todas as semanas e regresso a casa, sempre muito atento à estrada e a umas coisas inofensivas que começaram a aparecer nos passeios e que eu evitava pisar, apesar de me dizerem que dava sorte. Ao contrário dos caminhos de África, por onde só podia caminhar de dia, estas caminhadas eram realizadas à noite logo a seguir ao jantar.
Finalmente, setenta anos depois, descubro novos caminhos. Pelo meio dos pinhais, mais precisamente pelo pinhal de Leiria. Não estão tão bem marcados como estavam os africanos, são muito mais largos e de piso variável, que vai do compacto até ao arenoso, onde se enterra o pé, o que torna a caminhada também um bom exercício físico. Aqui não há as curvas dos africanos, estes são mais a direito e com muitas variantes. Também têm os seus perigos, agora duma coisa a que se chama moto-cross, umas máquinas de duas rodas com um animal empoleirado, que além de revolverem os caminhos por completo, fazem um barulho do diabo e se atiram para cima do pobre caminhante se este não foge a tempo. Mas, mesmo com estes riscos e mesmo no verão quando o calor sufoca, é agradável passear pelos pinhais, onde sopra sempre alguma brisa fresca, caminha-se à sombra, o que é bom para quem não pode apanhar sol.
E, para além destes caminhos físicos, existem também os caminhos da vida por onde também caminho, como todos os outros mortais que vão passando por este universo em permanente renovação. As caminhadas aqui são muito diferentes, os caminhos não estão visíveis, raramente se chega ao lugar a que se quer, se é que ele existe. Caminha-se sem saber como, sem saber porquê e para onde, a única certeza que se tem é que um dia a caminhada termina, outros a continuam e outros a começam.
*quimbo, termo angolano: povoado; sanzala; casa ou conjunto de casas constituindo um só lar (Infopédia)