Cardus Edição 112, agosto 2022

Cardus


O Sonho

“Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.”

Sebastião da Gama







Convite


Para ir a Setúbal atravessa-se a ponte, anda-se mais ou menos quatro dezenas de quilómetros, vira-se à direita e está-se lá. Fica mesmo aqui ao lado, vai-se e vem-se no mesmo dia, é uma escapadinha acessível a esta Lisboa empanturrada de calor e de turistas.

Setúbal foi para mim, durante muito tempo, um local de passagem. Ia para sul, parava lá apenas para comprar géneros no super e um bom peixe no mercado. Este, tipicamente um bom cherne, era consumido nesse mesmo dia, fora da estrada, uns quilómetros mais a sul, já depois da ponte de Alcácer, um ponto famoso na estrada para o Algarve que todos os anos bloqueava no dia um de agosto, naqueles anos em que nesse mês todo o Portugal parava e viajava para sul.

Um dia descobri que havia muitos jardins em Setúbal. Descobri-os correndo a meia-maratona da cidade, um desporto que é bom para se conhecer as cidades, os organizadores encaminham normalmente os corredores pelos sítios mais emblemáticos e apelativos.

Um dia também conheci a Arrábida. E foi parado lá no alto que apreciei o espaço imponente da serra e do mar à volta, tão espetacular como a dificuldade em o descrever. E cá em baixo acabei também por descobrir a Figueirinha e o Portinho da Arrábida, praias paradisíacas, embora, em abono de verdade, mais de estar do que banhar.

E um dia alguém me levou a comer, num restaurante atrás do mercado, uma massinha de cherne. A autêntica, que se come com uma colher e que mais parece uma sopa caldosa de coentros, engano que fica desfeito após a primeira colherada. Espero ainda vir a descobrir o choco frito de que tanto se fala, não há pressa, a oportunidade há de chegar.

E em algumas idas para o Algarve também descobri o ferry, o Sado (o tal rio que corre para Norte) e os seus golfinhos, a península de Troia e mais abaixo a Comporta com o restaurante de arroz.

E assim lentamente, num processo que começou há quarenta anos e que ainda não terminou, lá vou descobrindo Setúbal. Tudo pela mudança de paradigma, a cidade deixou de ser um ponto de passagem passou a ser um lugar aonde ir.

As últimas descobertas foram a praça do Bocage e o nº 286 da Avenida Luisa Todi que fica mesmo ao lado. É aqui que se encontra patente uma exposição sobre Amália, parte final dum projeto que um amigo construiu e produziu e cujos pormenores estão na página dos museus deste jornal. Lá estão, no rés do chão, os desenhos inspirados nas histórias de Amália. Por mim gostaria de ter alguns comigo, mas infelizmente não estão à venda, a única coisa que se pode comprar na exposição é o catálogo. No segundo andar da galeria existe mais uma exposição que também recomendo.

Pois e vem agora o título desta crónica. É isso mesmo, convido os leitores do jornal a irem até Setúbal e visitarem a exposição da Amália para além de tudo o mais que se pode ver e apreciar na cidade. Ao lado da exposição e parte integrante do edifício da galeria existe um “lounge bar” espaçoso com um balcão ao fundo. Depois da exposição é só sentar numa mesa e pedir um gin tónico, uma especialidade da casa. Neste tempo de calor abafado é a frescura ideal para um fim de tarde em Setúbal.