Cardus Edição 111, julho 2022

Cardus


Se existe um livro que gostarias de ler, mas que ainda não foi escrito, então tens que o escrever.

Morrison, Toni






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Escrever um livro


Naquela fase da vida em que já não é preciso lutar muito por ela, pelo menos para quem vive nos chamados estados sociais, é usual aparecer muita gente a escrever. E escrevem por diversas razões, como sejam, o gosto pela escrita, porque acham que têm muitas coisas para contar e que outros vão gostar de saber, realização pessoal e muitas vezes também para escape de coisas amargas a que a vida os sujeitou. Claro que também existirá alguma vaidade e sede de protagonismo nesta matéria.

Os mais afoitos e ousados chegam mesmo a publicar aquilo que escrevem, sejam pequenas crónicas da vida passada, sejam biografias completas. As edições, atrevo-me a dizer, são todas de autor, quantidades mínimas que na maior parte dos casos são oferecidas aos amigos e familiares. Alguns com um forte sentido comercial conseguem vender alguns livros e assim menorizar os custos da publicação.

É uma pequena literatura que tem o seu valor e não deve ser menosprezada, pelo contrário, deve ser apoiada. O seu valor não está na parte literária (não deve ser olhada por este lado) mas sim no conteúdo, puros retratos duma época nos seus aspetos sociais, sentimentais e principalmente históricos. Há também muita crítica nesta literatura, mais exacerbada em alguns casos, mais subtil e leve noutros.

Recentemente deparei-me com duas edições de autor que se enquadram no tema desta crónica. A primeira1 (de um conterrâneo meu) de alguém que quis deixar um testemunho de como se vivia na sua terra em tempos idos, escrito em texto corrido; a segunda2 (de um antigo colega) com os mesmos objetivos, mas agora com textos soltos, tipo crónicas. Qualquer dos livros se lê muito bem: leitura fácil, honesta, humor quanto baste, mesmo que a situação não seja a mais apropriada. São registos que ficam, é história que se faz, são documentos para o futuro, hoje com divulgação restrita, amanhã, eventualmente, mais alargada. Ambos os livros emparelham na minha estante, sem qualquer complexo, com outras obras muito mais divulgadas e consideradas de grande valor literário.

Este jornal digital surgiu como uma variante de escrita motivada pelas mesmas razões que leva estes pequenos autores em fim de vida a escrever. E como esta atividade deve ser apoiada, este espaço está disponível para quem quiser dar visibilidade ao que escreve. A ideia é criar mesmo uma livraria digital, onde se possa ler e dar a ler. E para ler basta apenas um telemóvel com um ecrã com alguma dimensão. Seja interessado nesta causa, não hesite, navegue para a página do “contacto” (menu “Sobre Nós”) entre em contacto connosco e todo o resto se resolve. Em alternativa, divulgue (o jornal e o espaço) por amigos e conhecidos, os “jovens escritores” além de escrever também gostam de ser lidos.

1) Os Deserdados, Turíbio da Encarnação Machado.
2) Menino do Mato, Histórias de uma vida, Mário Inácio.