Cardus Edição 110, junho 2022
Provérbio africano
Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem de correr mais veloz que o leão ou será morta.
Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome.
Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr.
Mia Couto, a confissão da leoa, Caminho, 2012
Um familiar de segunda geração disse-me, num dia de aniversário, que não queria crescer, queria ficar para sempre criança, não queria ser adulta. Também ouvi falar em tempos antigos dum miúdo que escreveu um artigo ou fez uma redação cujo título era “adultos à força”. E conheço também jovens que adiam muito para além do razoável a altura de deixarem a casa dos pais e seguirem o seu próprio caminho.
Há muita gente que não quer começar a correr logo de manhã como recomenda o provérbio africano. Recusam-se a entrar numa sociedade que se rege pelos valores da luta, do poder, do protagonismo e da concorrência. Casais concorrem um contra ou outro, irmãos contra irmãos, colegas contra colegas. Quem tem o carro maior, quem é o melhor na escola, quem tem a melhor casa, é toda uma pirâmide de valores quanto mais se subir nela, maior o sucesso, maior a fama, maior a realização pessoal. E a pressão para subir a pirâmide é permanente, seja nos jornais, na televisão, as famílias são quem mais pressão exerce.
De Peter Pan apenas sabia que também não queria crescer. Nunca li as suas aventuras, nos meus tempos de criança não havia histórias nem para ler nem para contar antes do deitar. Também não foram lidas histórias para adormecer à primeira geração de descendentes. Contudo, chegada a segunda, as coisas mudaram, alguém chamou a geração mais velha para ler histórias às crianças e as adormecer. Todas as histórias tinham muita imaginação, contudo algumas até conseguiram arrepiar quem lia, o que o levou muitas vezes a questionar se este hábito de séculos não era mais prejudicial do que benéfico para a formação das crianças.
Nem todas crianças precisavam de ouvir histórias para adormecer. Algumas mais independentes ou mais avançadas na idade liam elas próprias, aqui era só retirar lentamente o livro caído para o lado na altura de abandonar o quarto. Uma destas que lia sozinho, quis (e quer) ser bailarino, seguiu a escolaridade própria e é aluno na escola de ballet sueca de Gotemburgo. Como é habitual nestas escolas, no fim do ano escolar apresenta-se uma peça em que os alunos têm oportunidade de mostrar ao público, uma maioria de pais e familiares, o resultado de um ano de aprendizagem. E foi assim que o autor destas linhas pode assistir a um espetáculo de ballet clássico e moderno, baseado nas aventuras de Peter Pan & Wendy com coreografia de Sebastian Michaneke e cenografia de Emanuel Peterson.
O espetáculo seria também uma oportunidade para se conhecer melhor a história dessa personagem criada há mais de cem anos pelo muito famoso James Matthew Barrie. E o que se percebe é que afinal o não querer crescer de Peter Pan é apenas um pormenor e mais nada. O herói porta-se como um adulto, gosta do poder, combate outros poderes, as próprias fadas da peça não são aquelas figuras boazinhas com a varinha de condão que tudo resolve, são também ciumentas e vingativas.
E com esta descoberta toda a orientação desta crónica que ia no sentido da solidariedade com os que não querem crescer, perde o remate final que pensava obter de Peter Pan. Talvez não, tal como ele que não queria crescer, a realidade é que acabamos todos por deixar de ser crianças, por mais ou menos traumático que isso posso ser para alguns. E com o tempo acabamos por nos habituar a viver (ou a sobreviver) nesta selva construída à medida daquilo que de mais primário temos.