Cardus Edição 109, maio 2022
Piódão, 24 de outubro de 1965
Olho do alto da serra as aldeias cavernícolas que nos boqueirões esperam em vão pelo sol natural e social, ponho-me a pensar no que vai pelo mundo, e em vez da revolta antiga invade-me uma espécie de confuso contentamento instintivo. Qualquer coisa dentro de mim sente-se nelas preservado, defendido das mil agressões do momento. É como se as raízes mais profundas do meu ser se vissem de repente em segurança no desterro da cada um destes redis primitivos, transformados milagrosamente pelo próprio abandono em promissoras ilhas de reserva humana.
Miguel Torga (Diário)
Ir ao Piódão é serpentar pelas encostas escarpadas da serra do Açor em estradas estreitas onde dois carros se cruzam à justa e às vezes também aparecem autocarros.
E já perto do destino, avistar então, ao fundo do vale, a aldeia em socalcos com as suas casas de xisto, madeira e o azul das portas e janelas.
E ao entrar na aldeia lutar por um lugar onde estacionar, se possível nivelado e abrigado, para o que é preciso muita sorte e algumas voltas pelo asfalto apertado.
E depois de estacionar, dar uma volta pela aldeia, pelo sobe e desce empedrado, pelas ruas estreitas e tortuosas, pelas pequenas levadas, confirmar que a venda do Lourenço e o dono ainda lá moram. E por fim, subir pela calçada quase a pique e chegar, com os gémeos a doer e a respiração ofegante, ao ponto alto da aldeia onde, em tempos áureos, se localizava a eira comunitária.
E descobrir que aqui em tempos idos se malhava o centeio. “Quando era no princípio de julho estava maduro e era malhado na eira. A gente punha um monte de centeio, íamos buscar os molhos e depois escrevia-se numa pedra de xisto “Dia 21”, por exemplo, “malha César Pacheco” era o meu pai. “Dia 22 malha fulano”. ..
E depois descer e no largo da igreja seguir o cheiro do chouriço assado, aceitar o convite para entrar, sentar numa cadeira de madeira à volta duma mesa pesada, e degustar várias espécies de pão, entre elas a broa, acompanhadas pelo tinto da casa, enquanto não chega o petisco encomendado. E para regularizar a broa e o pão que caíram no estômago juntamente com as rodelas de chouriço mal assado, terminar a refeição com uma saborosa sopa de feijão. E ao sair, na loja dos souvenirs, comprar uma garrafa de aguardente de medronho caríssima, tão cara quão grande o sorriso do vendedor deslocado.
E recolher à casa móvel, fazer a cama, deitar ainda a noite é uma criança e dormir embalado pelo som da água que desce em cascata pelas encostas da serra.
E no dia seguinte levantar cedo e dar uma volta pela fresca com a sol agora aquecendo o outro lado do vale.
E encontrar uma senhora com muita idade e rugas, de poucas falas, que apenas responde ao bom dia, e continua a lavar a roupa, no tanque comunitário, mãos na água gelada e no sabão macaco, meu conhecido dos tempos de criança.
E lavar a cara com a água do rio que corre, porque os sanitários junto à piscina fluvial estão abertos, mas as torneiras não têm água e as sanitas estão cheias de papel e outra coisas que mesmo secas não cheiram nada bem.
E descobrir que existe um moinho recuperado, mas fechado, que apenas com a ajuda da câmara minúscula do telemóvel se consegue ver o interior. E ler no placard ao lado que “antigamente havia uns 14 moinhos que andavam a moer de dia e de noite! Depois alguns moinhos eram, por exemplo, de cinco ou seis herdeiros, outros de três ou quatro e todos lá coziam. Começavam à segunda-feira e era até sábado à meia-noite! Só folgava ao domingo. Davam para toda a gente mas, quando era na época do verão, é que era pior, porque a água era pouca. Agora quando era no inverno, a água chegava para todos. Era uma grande roleta! A gente já sabia quando era a nossa vez de ir ao moinho. Por exemplo eu ia moer à segunda-feira, outra pessoa ia moer à terça, e outra ia à quarta. Depois havia moinhos que era de seis dias, moinhos que eram de nove dias e moinhos de 12 dias. Esses eram de 12 pessoas. Daquelas 12 pessoas todas moíam naqueles doze dias. No dia 13 já começava outra vez o primeiro a moer.”
E a seguir ao pequeno-almoço caseiro iniciar a caminhada pelo percurso pedestre que vai até à Foz de Égua. Percurso este que para lá é sempre a descer e para cá sempre a subir. E enquanto se caminha pela encosta abrupta, ver no outro lado ruínas de xisto, que já foram casas ou currais, e imaginar como deve ter sido difícil a vida de quem vivia nas encostas da Serra do Açor.
E chegado à Foz d’ Égua onde esta ribeira se junta com a que vem do Piódão, parar, sentar, e ouvir o som alegre da água, envolvendo-se com as pedras que de rudes em lisas e redondas se tornaram.
E subir um pedaço e admirar a arquitetura das casas de pedra modernas, sem gente e sem vida, onde em cada esquina há uma tabuleta que diz “PRIVADO”.
E voltar ao Piódão pelo mesmo caminho, agora sempre a subir, com a bolha do pé a crescer e a fazer-se notar dentro da bota, e o estômago a reclamar pelo almoço que já tarda.
E almoçar agora comida caseira, no carro móvel, almoços que dão sono, o que se come e o que se bebe, e que não é preciso resistir ao sono, apenas aproveitar e acordar lá mais para o fim do dia.
E então, arrumar as coisas, por o motor a trabalhar, apontar à estrada e lá nas alturas, antes da última curva, olhar para trás e dizer adeus ao Piódão, à aldeia história mais famosa de Portugal.