Cardus Edição 108, abril 2022

Cardus


Não conheço nada mais desprezível e patético do que um homem que dedica todas as horas do seu dia a fazer dinheiro pelo dinheiro..

John Rockefeller


Viver de números


Fui chamado ao Banco. Tinham uma proposta a fazer-me. As pequenas economias que estão lá guardadas não estavam a render o que poderiam. E então a proposta era acabar com os depósitos a prazo e investir noutras áreas como seguros e fundos de investimento. E dentro destas duas modalidades havia ainda que definir o grau de risco que ia de um a sete, quanto mais elevado maior a probabilidade de ganhar muito ou perder também muito. E quer nos fundos de investimento quer nos seguros havia uns que estavam indexados a ações, outros a índices e dentro das indexações também se podia definir a percentagem de indexação a isto ou aquilo. E ainda uns que podiam ser desmobilizados logo e outros não, aliás podiam ser desmobilizados, mas com penalização. Muitas contas e demonstrações, os ganhos ou perdas andavam nos zeros para lá da virgula. O funcionário perdeu uma hora comigo, acabei por investir uma parte em fundos de investimento, outra em seguros, o rapaz ficou contente, daqui a um ano a conta à ordem vai receber uma fortuna, uns cêntimos que nem chegam a um euro. Duas horas perdidas, uma no banco e outra para ir e vir, para ganhar uns cêntimos, a minha hora de trabalho anda assim pelas ruas da amargura. E o banco, com esta rentabilidade também não deve ir longe.

É possível viver de números desde que estes tenham alguns zeros à direita, quantos mais melhor. Com poucos zeros tem de se arranjar outros meios de subsistência, não se pode viver do que eles rendem porque poucos zeros rendem muito pouco. É como as propriedades da terra. Uma grande propriedade rende bem, uma pequena não rende nada pode até dar prejuízo. Viver de rendimentos é isso: ter grandes números e pô-los a render. E o que é isso de pô-los a render? Sentarmo-nos e por esses números à disposição de quem os quer usar. Se terra, aluga-se a quem a quer trabalhar, se dinheiro empresta-se a quem precisa dele para produzir. E, depois, quando chega a hora, levantar do sofá e ir buscar, a quem se emprestou ou a quem se alugou, a parte que nos pertence do trabalho que alguém fez enquanto estivemos sentados. É assim que a civilização da propriedade funciona.

E para suportar isto há uma máquina complexadíssima que trata de forma que tudo funcione na perfeição. São milhões de pessoas e máquinas que a única coisa que fazem é andar a transferir números de umas contas para outras. E há também papéis com nomes muito próprios, que circulam de umas mãos para outras, e um batalhão de gente e de máquinas que a única coisa que faz é mudar os nomes na parte mais importante desses papéis.  E, se calhar, há também alguém a controlar tudo isto e a garantir que os papeis e os números estejam sempre no sítio e nas pessoas certas.

O sistema funciona bem, assegura que nem toda a gente possa viver de rendimentos. Assim fosse e descobria-se que os números não servem para comer, alguém tem de assegurar esta parte muito importante da vida.