Cardus Edição 107, março 2022
A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê de mais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar.
Albert Einstein
Uma escritora minha conhecida publicou uma seleção das crónicas que semanalmente saem no jornal em que colabora. O livro faz parte da minha coleção*, uma das crónicas tem por título “Os Meus Amantes”. Assim mesmo, tal como está escrito.
E a crónica é tão expectante quanto o título, que desde pequena colecionou amantes, que quando era nova os pedia emprestados às amigas, que o próprio marido se habituou aos amantes da mulher, que a partir de certa altura até lhe arranjava alguns a seu pedido, enfim uma crónica de sabor latino, que se lê com alguma expectativa e assombro até ao último parágrafo. E é aqui, bem no fim, que se encontra o remate final que deixa as pessoas mais elucidadas. Os seus amantes são … os seus livros.
É assim, como amantes ou paixão a realidade é que os livros atraem muita gente. Estão envoltos numa áurea de ciência e cultura, o que cativa muitas pessoas, mas há de tudo nos livros, não me compete a mim dizer o que é bom e o que é mau. É corriqueiro nas televisões de hoje ver imagens de fundos com estantes de livros que os entrevistados ou apresentadores à distância fazem questão de mostrar.
O mais importante nos livros é seguramente o seu conteúdo, há quem olhe para eles fundamentalmente por este lado, são estes os verdadeiros leitores. Mas há também quem, para além de leitor, seja também ou apenas colecionador. A encadernação, a capa, o tamanho, folhas cozidas ou coladas, passam agora a ser também importantes. E um livro de um escritor célebre vai para o fundo da prateleira se for de bolso ou menos valorizado. No meu caso, se tiver lido 50% dos livros que tenho já é muito. Desculpava-me, em tempos, que andava a comprar para ler na reforma, já ando há uns anos nesta fase e a leitura aumentou, mas não foi muito.
Os livros também se emprestam, é um bom recurso para leitores puros, assim haja quem empreste, sejam pessoas sejam bibliotecas. Colecionadores normalmente não gostam de emprestar ou se emprestam gostam de ver o livro devolvido rapidamente e em bom estado. Já emprestei alguns livros, fiquei sem eles a maior parte das vezes. Não agora, mas quando mais novo nomeadamente enquanto estudante. Uma vez pedi também um livro emprestado. Um livro de estudo, de Estatística, que me fez muito jeito para fazer a cadeira. Por desleixo não o devolvi na altura própria, acabei por perder o rasto de quem mo emprestou. Dezenas de anos depois encontrei-o, por acaso, na rua, falei-lhe do livro, afinal ainda bem presente na memória do dono. Por razões que não consigo explicar disse-lhe que ao fim destes anos todos o livro já era meu, não o ia devolver. Ainda hoje tenho presente a cara estupefacta, incrédula e resignada do dono do livro. Provavelmente nunca mais o vou encontrar, vai ser difícil devolver-lhe o livro que ele amavelmente me emprestou.
Os livros um dia vão morrer, vão enferrujar e terminar como pó. E não vão ser precisas muitas gerações para que isto suceda. Os conteúdos, não! Apenas em novos formatos, menos palpáveis e mais visuais. O que até não é mau. As árvores agradecem, outras naturezas talvez não.
Cardus
*Passaporte Inconformado, Aida Baptista, Edições MinervaCoimbra, 2004