Cardus Edição 105, janeiro 2022
Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento
Fernando Pessoa
Voei pela primeira vez para Sydney há onze anos. Se bem lembro foram necessárias duas escalas e um pouco mais de um dia para lá chegar. A diferença horária para Lisboa era de onze horas, pelo que, pela primeira vez na vida, soube o que era o jetlag: demorei uma semana até ter o sono alinhado com a noite. As imagens da ponte do porto e da casa da ópera vistas quando o avião se fazia à pista foram momentos de grande excitação, tal como mais tarde ver os primeiros cangurus.
Sydney foi construída sobre pedra escura, tudo é forte, sólido e pesado. É banhada pelo pacífico o tal oceano que afinal não tem nada a ver com o nome com que Fernão de Magalhães o batizou. Também, pela primeira vez, vi o nascer do sol no mar que, conjuntamente com a condução pela direita, fazia com que me sentisse assim como num país ao contrário. Apesar de grande metrópole, é uma cidade calma e tranquila, se há aqueles movimentos loucos das grandes cidades, não me apercebi disso. Gente a correr, só de manhã, antes do trabalho, no seu jogging matutino. E há mesmo muita gente a correr pelas ruas de Sydney logo a seguir ao nascer do sol. Mesmo as provas oficiais, as corridas populares, começam muito cedo, a meio da manhã já está a corrida terminada e as taças entregas aos vencedores. Por cá devem ser poucas ou nenhumas as corridas que começam antes das nove, o pessoal levanta-se tarde, bom mesmo é correr quando o calor aperta.
Nos pontos turísticos existe sempre um ou outro tocador de Didgeridoo, regra geral um australiano branco pintado de aborígene, que aproveita a curiosidade turística para arrebanhar umas moedas, muito poucas nos casos que presenciei. Vêem-se poucos aborígenes em Sydney, pelo menos aqueles que mantêm as suas tradições, aspeto e cultura. Vêem-se, sim, muitos malaios e orientais, a Austrália vai perdendo o ar british e ganhando diversidade. Nos arredores veem-se ainda muitos greens mas nota-se que andam com falta de clientes, a maior parte estão vazios, os encontros para os grandes negócios, os negócios do império, mudaram de sítio.
Toda esta conversa sobre Sydney veio parar a esta crónica porque estamos a iniciar um novo ano. A pirotecnia tem o seu grande momento na passagem do ano. Por todo o lado e de hora a hora há foguetes no ar, de pequena ou grande dimensão. O fogo de artifício de Sydney é famoso em todo o mundo. É lá que começa o Novo Ano por ditames de organização horária. Nunca vi o espetáculo ao vivo, já o vi por Skype, este ano acabei de o ver agora num vídeo disponibilizado na internet pela organização. Mesmo condicionada pelo Covid continua a ser um grande espetáculo como se pode ver no Youtube que partilho.
Um bom ano para todos.