Cardus Edição 70, 15-12-2019

Natal

Estes três selos foram emitidos pelos CTT no passado dia vinte e dois de outubro. O tema é o Natal, a grande quadra festiva que agora se aproxima. A emissão contempla ainda um bloco com a imagem do estábulo e a estrela brilhante por cima. A inovação tecnológica também já chegou aos selos, quem tiver um telemóvel com NFC, pode pôr a estrela a brilhar, basta seguir as instruções disponibilizadas pelos CTT.

Regra geral de dois em dois anos os CTT emitem uma série sobre o Natal, normalmente das últimas do plano anual. Não é só os CTT que o fazem, também a grande maioria de administrações postais de países com tradição católica. Quer isto dizer que no Natal existem selos para todos os gostos e feitios, houvesse ainda a moda do envio dos postais e teríamos muito com que decorar os pinheiros.

Nesta emissão os CTT investem principalmente nos reis magos que se fazem acompanhar dos seus camelos, o que bate certo com a Bíblia, que não diz muito sobre os magos, nomeadamente quantos eram, apenas que vieram do oriente. O pormenor das ilustrações não dá para confirmar, mas, à partida, é suposto os magos terem nas mãos as oferendas ao menino rei, como sabemos, ouro, incenso e mirra, cada uma com o seu simbolismo associado: a primeira à realeza, a segunda à divindade e a terceira à paixão. Destas três um simples mortal apenas tem acesso à paixão, que normalmente acaba mal, mas isto só na vida real, o mundo espiritual é diferente.

Beda, o Venerável, um monge inglês (673-735) que em 1899 foi proclamado Doutor da Igreja (um dos mais importantes títulos teológicos da Igreja Católica) pelo papa Leão XIII, resolveu pôr em ordem toda a informação diversa, nem sempre coincidente, que havia sobre os Reis Magos, ficando assente que:  Belchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus; Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio; e Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz(1) (https://pt.wikipedia.org/wiki/Três Reis Magos)

Identificar nos selos os reis não me parece fácil, o do meio como aparenta ser um rapaz novo, deve ser Gaspar, assumo que o primeiro é Belchior e o último Baltazar, o tal que era mouro e que muitas vezes aparece pintado de preto, suponho que por vir do sul.

No bloco lá temos então o estábulo, o presépio e a estrela, que se pode acender com o telemóvel, e que guiou os reis Magos. Acabamos todos por ter uma estrela cuja luz nos guia não por caminhos físicos, mas por comportamentos, convicções, códigos, maneiras de pensar ou estar. Cada um tem a sua estrela, que escolheu ou alguém lhe indicou. Caminhos paralelos são tranquilos, quando se cruzam dá choque. E como as estrelas são muitas, a vida são encontros e desencontros pelos caminhos por onde as estrelas nos levam.

(1) Arábia Feliz é a denominação da parte meridional da Península Arábica, correspondente aos atuais Estados do Iémen e Omã. A parte norte do Iémen e o Vale de Hadramaute constituem a parte mais fértil da Península Arábica, o que justificava a denominação Arábia Feliz. Na Antiguidade, a região era famosa pela exportação de mirra. Os romanos dividiram a Península Arábica em três partes: a Arábia Pétrea, a Arábia Deserta e a Arábia Feliz (Wikipédia).