Cardus Edição 66, 15-10-2019

V Centenário da Expedição Magalhães-ElCano

O presente bloco foi emitido pelos CTT em 12 de setembro deste ano. Trata-se duma emissão conjunta com a Espanha, mais um contributo para as comemorações dos 500 anos da realização da primeira viagem de circum-navegação por mar, como sabemos iniciada pelo nosso Fernão de Magalhães e terminada por Juan Sebastián Elcano, um basco muito celebrado do lado de lá e ignorado do lado de cá. Esta aventura confirmou aquilo que já se suspeitava, que a terra é redonda. O bloco é praticamente igual nas emissões portuguesa e espanhola, apenas na portuguesa está rendilhada a figura de Magalhães e na Espanhola a de Elcano.

Sabe-se tudo sobre esta viagem devido a um senhor italiano chamado Antonio Pigafetta, contratado como cronista oficial da expedição, por sua própria vontade e desejo, aceitando inclusivamente um salário inferior àquele a que teria naturalmente direito. Existe muita literatura sobre este famoso acontecimento, a mais imparcial provavelmente a estrangeira, da qual tenho alguns exemplares em casa, onde fui buscar material para escrever esta crónica. O escritor de viagens português mais conhecido, Gonçalo Cadilhe, também publicou obra sobre Fernão de Magalhães, neste caso viajando pelo mundo fora pelos lugares por onde o navegador passou.

A Armada das Molucas era constituída por cinco naus com o nome de Trinidad, San Antonio, Concepción, Santiago e Victoria, esta última a única que regressou ao ponto de partida. Foi um dos maiores investimentos realizados em armadas e o seu objetivo não tinha nada a ver com realizar uma viagem de circum-navegação mas tão somente, atingir as Molucas, navegando para ocidente, fora do mar português, ilhas que seriam então reclamadas para a coroa espanhola, pois Magalhães pensava, ou acreditava, que as ditas ilhas estariam na metade espanhola da divisão do Mundo pelo tratado de Tordesilhas.

Dirigir uma armada constituída por cinco navios com marinheiros de dez nacionalidades e comandantes espanhóis à espera da primeira oportunidade para mandarem o português para casa ou para o fundo do mar não era, nem foi, tarefa fácil. Magalhães resistiu a tudo, motins, traições, emboscadas, revoltas, tudo ele resolveu a seu favor, à custa de muita astúcia e pulso de ferro, sem contemplações com os vencidos ou amotinados. Convenceu-se a determinada altura que era omnipotente e cometeu o erro que lhe custou a vida: na ilha de Mactan, nas Filipinas, Fernão de Magalhães morreu numa escaramuça em que cinquenta soldados enfrentaram centenas de indígenas, numa ação em que Magalhães, inexplicavelmente, ignorou por completo a sua capacidade de estratega e comandante.

Morto o almirante, a armada ficou sem o grande líder, aparece então a figura modesta de Elcano, que assumiu o comando e imediatamente se concentrou no regresso a casa, não pelo caminho que haviam traçado, por onde dificilmente sobreviveriam devido ao estado debilitado em que se encontravam, mas pelo mais direto e conhecido, pelo mar português, que Magalhães já havia percorrido quando mais jovem. Há que dar agora mérito a Elcano, pois com muita sorte, mas necessariamente também com alguma argúcia e coragem, conseguiu regressar ao ponto de partida, numa grande viagem cuja regra básica de sobrevivência era evitar, quer em mar quer em terra, encontros com tudo aquilo que cheirasse a português. A 10 de setembro de 1522, a Victoria, com o costado retalhado, o cordame podre e as velas esfarrapadas, com dezoito marinheiros e três cativos, com línguas inchadas, completamente esqueléticos sem forças para andar ou mesmo falar, regressou a Sevilha donde tinha partido três anos antes. A Victoria não trazia só marinheiros e cativos moribundos, trazia também riqueza no porão, para regozijo da coroa espanhola, que pôde assim pagar o que devia e ainda ficar com bastante para continuar a viver bem e investir em novos empreendimentos.

Quinhentos anos depois o mundo está diferente, Portugal e Espanha já não são as potências marítimas que dividiram o mundo em duas partes. As guerras antigas acabaram, agora os tempos são de boa vizinhança, anuncia-se que as comemorações dos quinhentos anos da primeira viagem de circum-navegação vão ser realizadas em conjunto pelos dois países, tal como esta emissão de selos. Estão planeadas diversas atividades ao longo dos próximos três anos, nomeadamente conferências e exposições com o envolvimento dos países por onde Magalhães andou. Está ainda planeada uma réplica da viagem de Circum-navegação, pela Rota de Magalhães-Elcano, a realizar entre 2020 e 2021 pelos Navios-Escola “Sagres” e “Juan Sebastián Elcano”, bem como a apresentação da candidatura da mesma rota a Património Mundial da Humanidade.

Magalhães ficou para a história não como Magalhães que ninguém sabe quem é, mas como Magellan, como é conhecido internacionalmente. O seu nome está por todo o lado, seja na sonda que a NASA enviou para Marte, seja numa das crateras da Lua, seja no estreito com o seu nome. Muitos nomes também a ele se devem, tal como o Oceano Pacífico (que de pacífico não tem nada), Patagónia e Montevideu entre muitos outros.