Cardus Edição 65, 01-09-2019
Estes dois selos foram emitidos pelos correios da Suíça em 29 de agosto do corrente. O tema é a cerveja, uma bebida que na Suíça tem grandes apreciadores e consumidores, com números sempre a subir. No selo da esquerda temos uma “mass”, uma caneca típica de um litro (muito popular não só na Suíça, como também nos vizinhos, nomeadamente na Áustria e Alemanha) e, na direita, um copo de cerveja escura, suponho que a representar o fabrico artesanal, tal com a primeira poderá representar a produção industrial desta bebida.
A cerveja acompanha o homem desde 4000 AC, no que tem de bom e de mau. É uma bebida fermentada, alcoólica, feita de água, malte, leveduras, lúpulo e outros ingredientes menos relevantes. É produzida industrialmente, mas também o pode ser em casa, basta comprar os produtos e os equipamentos necessários, que existem para todas as medidas e necessidades, e pôr a instalação a funcionar. Como diz um amigo, 95% da cerveja é água, há quem diga que na água é que está o segredo da cerveja, os Münchners dizem que a sua é a melhor do mundo, porque é feita com a água limpa e cristalina que desce dos Alpes para a cidade.
O que mais aprecio na cerveja é a sensação de frescura que em tempo de calor é extremamente agradável. Nem toda a gente a bebe fresca, os cubanos gostam dela quente (questões de hábito, talvez), em Angola aqueciam-na entre as mãos quando recebiam uma “fresquinha”. A sensação de frescura não mata a sede, quanto mais se bebe mais sede se tem, aqui está o problema da cerveja, é preciso parar no momento certo, o que nem toda a gente consegue. É a bebida alcoólica mais consumida no Mundo, tal como em Portugal onde tirou o lugar ao vinho, até há uns anos a referência cultural do país.
A cerveja (o álcool) anima o convívio entre as pessoas, torna-as mais alegres, mais desinibidas, mais predispostas à conversa, à discussão e até à exibição dos dotes vocais de cada um ou do conjunto. O problema é quando a alegria extravasa, quando se ultrapassa os limites, e aparece um monstro chamado ressaca, que nos tira do céu e nos coloca no inferno, que é mesmo aquele sítio muito mau onde ninguém quer estar, muito menos morar.
Os grandes convívios chamam-se festas, à volta da cerveja existem uma enormidade de festivais, mesmo em Portugal já ouvi falar de alguns. Um dos mais conhecidos no mundo é a OKtoberfest (Wiesn), que se realiza todos os anos em Munique, com a abertura no primeiro sábado a partir de 15 de setembro e o encerramento duas semanas depois. Este ano a abertura calhou a 21, está a decorrer neste momento.
O festival tem uma grande carga tradicional, o programa é sempre o mesmo desde há uma larga dezena, senão mesmo centena de anos. Começa com um cortejo que atravessa a cidade e termina no parque onde a festa é realizada, onde já estão montados os pavilhões das cervejarias, o parque de diversões e as feiras de produtos. Na frente do cortejo segue o presidente da câmara, logo atrás os agricultores e cervejeiros, todos instalados em carroças antigas puxadas por cavalos luzidios e ornamentados. As carroças e os cavalos estão cheios de cor, muitas flores e alegria, homens e mulheres vestidos com os trajes tradicionais, uma das carroças transporta os barris de cerveja que irão animar a festa quando aberta.
A abertura da festa é também ritual. Sempre no mesmo pavilhão, compete ao presidente da câmara colocar a torneira no primeiro barril a abrir. A torneira é colocada com a ajuda dum martelo, sendo contabilizadas as marteladas até a cerveja poder jorrar e encher a primeira mass que é tradicionalmente oferecida ao primeiro ministro do estado livre da Baviera. O record das marteladas vai em dois, um presidente de câmara mais desajeitado precisou de dezassete marteladas para extrair a primeira cerveja. Esta não começa logo a jorrar nos outros pavilhões, há que aguardar que o presidente da câmara grite “O’zapft is!”, e que sejam disparados doze tiros em frente da Baviera, o monumento representativo do estado, que se encontra ao fundo do parque. No dia seguinte há um novo cortejo, agora de trajos típicos e grupos regionais.
Os pavilhões são enormes, as mesas grandes e todas do mesmo estilo. Grandes e fortes são também os empregados e empregadas, a etiqueta é reduzida ao mínimo, quantas queres e sejam muitas ou poucas caem todas na mesa duma só vez, duas mãos são capazes de trazer suponho que oito canecas, duas delas entaladas no meio das outras. Não só se bebe, também se come, novamente em grande, um enorme joelho de porco assado é o prato mais consumido. No centro do pavilhão está a Musikkapelle, banda musical à base de metais, trajada a rigor, que vai debitando música alegre, nos primórdios apenas regional (tirolesa), hoje mais internacional, uma atenção aos turistas que enchem as mesas atraídos pela fama do festival. A orquestra de vez em quando faz uns brindes, bebem os convivas e os músicos, que tocar ou cantar também dá sede. A animação é grande como tal há que precaver excessos, mas esta parte também está bem controlada, seguranças disfarçados estrategicamente colocados, garantem que tudo corre dentro do razoável. Na primeira vez que estive na festa com um grupo de colegas, alguém, entusiasmado pelo álcool e pela música, resolveu iniciar a rodinha habitual dos nossos convívios, foi seguido por alguns, deram uns passos, mas qualquer coisa forte e convincente lhes apareceu à frente, porque calma e ordenadamente voltaram para os seus lugares onde a festa continuou. A cerveja tem um grande efeito diurético, pelo que há que disponibilizar sítios próprios, para nos aliviarmos do que temos a mais. Aqui continua a ser tudo em grande, torneiras humanas debitam em permanência caudais enormes de um líquido cuja cor e cheiro não tem nada a haver com o que o originou.
Enfim chega de cerveja e festa, o texto já vai longo, como em tudo na vida há que parar no momento certo. Estive três vezes na Oktoberfest, na primeira fiquei encantado, na segunda andei por lá, na terceira disse-lhe adeus.