Cardus Edição 63, 01-09-2019
Estes dois selos foram emitidos pelos Correios de Portugal em 16 de Maio do ano corrente, a propósito dos 100 anos da verificação da teoria da relatividade geral de Albert Einstein, através da observação dum eclipse total do sol. Adicionalmente os CTT publicaram ainda um livro bem documentado e ilustrado sobre o tema da autoria de Nuno Crato e Luís Tirapicos.
As observações do eclipse foram realizadas por duas equipas de astrónomos britânicos, uma em Sobral (Ceará, Brasil) e outra na ilha do Príncipe, no arquipélago de S. Tomé e Príncipe, na altura sob administração portuguesa.
Como é que um eclipse pôde validar a teoria da relatividade geral de Einstein foi a dúvida que me assaltou e que, após alguma investigação, me parece explicar-se do seguinte modo: em primeiro lugar a luz tem massa (“a luz pesa”, assim noticiava O Século em 15 de Novembro de 1919) como tal sujeita às leis de gravitação universal, pelo que, se passar perto duma grande massa (como é o sol) sofre uma deflexão tanto maior quanto mais perto dela passar. Para um observador colocado na terra, isto significa “ver” a mesma estrela em posições diferentes, quando está longe ou perto do sol. Se isto acontecer, tem-se a teoria de Einstein comprovada, ainda mais se o desvio verificado for igual ao calculado teoricamente. Uma maneira de se comprovar a teoria é então medir a posição das estrelas quando elas estão longe do sol (o que é fácil, basta fazê-lo de noite) e quando estão perto dele, o que já é mais difícil, pois para tal é preciso tapar o sol, isto é, esperar por um eclipse total, o que não sucede todos os anos nem em todos os lugares.
Para se comprovar a teoria de Einstein havia assim que escolher um bom eclipse do sol, estar na faixa terreste em que ele é total, escolher as estrelas mais apropriadas às medições e fotografar as estrelas com boas máquinas de modo a ser possível calcular desvios com grande precisão.
Foi isto que Arthur Eddington e Andrew Crommelin, dois astrólogos britânicos, fizeram: escolheram o eclipse total do sol que ocorreu a 29 de maio de 1919, identificaram previamente as estrelas a observar e, cada um com a sua equipa, deslocaram-se o primeiro para a ilha do Príncipe e o segundo para Sobral no Brasil, com a devida antecedência de modo a estar tudo pronto para as fotografias nos 6 minutos e 51 segundos que duraria o eclipse daquele dia. Eddington, no Príncipe, teve um problema com as nuvens que resolveram estragar-lhe a festa, das fotografias que tirou só uma teve algum valor científico; Crommelin no Brasil, teve mais sorte, o céu de Sobral estava totalmente limpo, com as fotografias que tirou, foi possível verificar que os desvios existiam e assim confirmada, experimentalmente, a teoria de Einstein.
A comunicação ao mundo desta importante verificação foi realizada em Londres numa sessão conjunta da Real Sociedade Britânica e Real Sociedade Astronómica de Londres, cerca de seis meses depois. Einstein, que já era mais ou menos conhecido na comunidade científica internacional, passou a partir daqui a ser uma celebridade mundial.
Dos famosos regista-se e guarda-se tudo, sejam documentos, fotografias, cartas ou mesmo simples notas ou frases. De entre as inúmeras frases que são atribuídas a Einstein, registo esta pela qual tenho um carinho muito especial: “A vida é como andar de bicicleta, para se manter o equilíbrio é preciso manter-se em movimento”.