Cardus Edição 61, 01-08-2019
Este selo foi emitido pelos correios da Austrália em 4 de março de 1993 e contempla a imagem do Uluru, o mais famoso monolítico do mundo, um monumento natural que faz parte da lista do património mundial da Unesco desde 1987 e que se encontra mais ou menos a meio da Austrália numa região em que a natureza é bastante agreste.
Alguém colocou na minha cabeça (posso ter sido eu próprio lendo mal ou em sítios impróprios) que este grande pedregulho tinha vindo do espaço e enfiado-se pela terra dentro há um ror de tempo. Constato agora (mais vale tarde que nunca) que não, nada disso, o Uluru formou-se na terra e tem a bonita idade de 350 milhões de anos.
Junto ao Uluru vivem umas pessoas há muitos milhares de anos, muito antes de serem invadidos por uma raça especial de estrangeiros que começaram a ocupar tudo o que era espaço (o que não falta na Austrália) e a implementar novas ideias e costumes. Esquecendo-se que o Uluru já tinha nome, uma das coisas que fizeram foi rebatizá-lo de Ayer's Rock (o apelido do chefe dos invasores), nome este com que era conhecido dentro da comunidade recém-chegada e afins.
O Uluru é considerado sagrado pelos Anangus, as tais pessoas que vivem há muitos milhares de anos junto dele. Tal como eu pensava, provavelmente acham que ele veio do céu, como tal merecedor de todo o respeito, não se cavalga um Deus, não se escala o Uluru, não se entra na casa de Deus a mastigar chicklets, a arrotar cerveja e a espalhar plástico, para não falar em coisas piores. Os Anangus, pediam a toda a gente para não escalarem o Uluru, para não ofenderem o seu Deus, mas trinta por cento dos invasores tinham outros valores, outros respeitos, outros objetivos, tinham mais que fazer do que estar agora a acatar os pedidos de uma minoria de aborígenes atrasados, esquisitos e parecidos com uns animais dos quais todos descendemos mas uns mais do que outros.
Os Anangus constataram que não iam lá com falinhas mansas, que tinham de fazer qualquer coisa para que os selvagens que todos os dias ofendiam o seu Deus passassem a ter mais respeito por ele. Meteram mãos à obra, foram reivindicando mais poder, mais autoridade, mais propriedade, finalmente vão poder dormir mais descansados: a partir de 26 de Outubro do corrente ano não é permitido escalar o Uluru, os corajosos que o tentarem fazer não vão poder partilhar as fotos sorridentes no cume da casa de Deus, quando muito partilham as tiradas na cadeia, juntamente com os alegres e garridos companheiros de aventuras.
Como diria Fernando Pessa: “E esta, hein!”.