Cardus Edição 59, 01-07-2019

Máscaras (Guiné – Bissau)

Este conjunto de selos foi emitido pelos correios da Guiné-Bissau em 10 de maio de 1976 numa série de seis cujo tema era máscaras de dança.

A máscara é uma manifestação artística muito popular na Guiné. A escultura em madeira é dominada por elas, normalmente representando animais dos quais os mais comuns são os touros, hipopótamos e peixe-serra.

A grande mostra dessas máscaras é no Carnaval que se tornou particularmente famoso nomeadamente o que é realizado na capital, que de ano para ano se tem vindo a cimentar como maior festa popular do país, atraindo um número cada vez maior de visitantes.

O Carnaval começou europeizado, mas rapidamente assumiu características próprias locais. Para isto contribuiu fortemente a diversidade de etnias e idiomas que compreendem o pequeno grande país que é a Guiné-Bissau. São cerca de vinte e três etnias e nove idiomas que se concentram todos os anos em meados de fevereiro em Bissau. E embora os grupos que desfilam estejam identificados com o bairro ou associação a que pertencem o que se verifica é que, afinal, são as etnias e respetivas culturas que vão desfilando pela avenida principal em direção ao palácio presidencial como manda a tradição. Basta olhar para as máscaras e para as danças e rapidamente se descobre quem está a desfilar. O Carnaval está nacionalizado, é apoiado pelo governo, todos os anos é escolhido um tema nacional que dá o mote aos festejos. O cortejo segue pela avenida principal, mas há mais cortejos pelas ruas paralelas ou perpendiculares, alguns criados no momento, tudo numa grande confusão organizada, segundo diz quem já presenciou esta festa popularíssima.

As máscaras são também usadas em festas e cerimónias religiosas ou secretas. Aqui a máscara não serve para esconder a identidade, mas sim para indicar de quem o dançarino ou portador vai assumir a personalidade ou o espírito.

Ao pesquisar na internet o tema das máscaras africanas deparei com o trabalho a seguir, que transcrevo nas partes mais interessantes, aproveitando a generosidade da autora (Joelza Ester Domingues). A versão integral está acessível no link:

https://ensinarhistoriajoelza.com.br

 

Máscaras africanas: beleza, magia e importância

 Durante muito tempo as máscaras africanas foram vistas pelos colonizadores europeus como peças exóticas, exibidas como curiosidades nos museus ou nas residências de viajantes ricos. Para os povos africanos, contudo, elas têm um significado espiritual e religioso e, desde tempos remotos, são usadas em celebrações, nascimentos, rituais de iniciação, colheita, funerais, casamentos, preparação da guerra, para curar doentes e outras situações. O uso de máscaras é uma característica dos povos da África Subsaariana. Um povo pode ter dezenas de máscaras diferentes e, entre os numerosos povos do continente, elas variam em estilo, tamanho, material utilizado, usos e significados. A máscara africana é, dessa forma, importante elemento de identidade cultural de cada etnia atestando a riqueza e a complexidade do patrimônio cultural africano.

Quando uma pessoa usa a máscara africana ela assume a entidade que a máscara representa, transformando-se no espírito evocado pela própria máscara que passa a residir dentro do corpo da pessoa. A máscara africana procura captar a essência do espírito, e não os seus traços físicos reais; por isso, ela faz uso de distorções e abstrações. As máscaras africanas do povo Bwa, de Burkina Faso, por exemplo, representam espíritos invisíveis da floresta e por isso, têm formas abstratas, puramente geométricas. Já as máscaras africanas do povo Fang, do Gabão, Guiné e República dos Camarões, tem a forma do rosto bastante afunilada e reduzida a poucos elementos: os olhos são pontos, a boca é um pequeno círculo, sobrancelhas e nariz unidos. Muitas culturas africanas imprimem em suas máscaras elementos morais. As máscaras africanas dos Senefu, povo da Costa do Marfim, por exemplo, têm os olhos meio fechados, simbolizando uma atitude pacífica, autocontrole e paciência. Já as máscaras africanas dos Grebo, também da Costa do Marfim, têm olhos redondos representando estado de alerta e raiva, e o nariz reto que significa determinação e decisão. Na Serra Leoa, boca e olhos pequenos representam humildade, e uma testa grande e saliente representa sabedoria. No Gabão, queixo e boca grandes representam autoridade e força.

 

Máscaras africanas de animais

 Os animais são comumente representados nas máscaras africanas. Uma máscara africana de animal pode representar, de facto, o espírito de um determinado animal e servir de meio para transmitir-lhe uma mensagem ou um pedido (por exemplo, para que fique longe da aldeia ou não devore a plantação). Em outros casos, um animal pode servir de símbolo de virtudes específicas. Assim, por exemplo, o búfalo representa força física para a cultura Baoulé, da Costa do Marfim. Antílopes são associados a colheitas abundantes de milho para os Dogon e os Bambara, do Mali. Há, ainda, as máscaras africanas que misturam traços de animais distintos, às vezes junto com traços humanos. Neste caso, elas representam virtudes excecionais que distinguem um espírito, um grupo ou um indivíduo de status elevado. As máscaras africanas kifwebe dos Songye, da República Popular do Congo, misturam listas de zebra, dentes de crocodilo, olhos de camaleão, boca de porco selvagem, crista de galo, penas de coruja e muito mais.

 

Beleza feminina

Outro tema comum das máscaras africanas é o rosto feminino. As máscaras africanas femininas dos Punu, do Gabão, por exemplo, têm olhos amendoados, sobrancelhas finas e arqueadas, nariz e queixo finos, maçãs do rosto salientes e trazem a pele embranquecida com caolin. Já as máscaras africanas femininas do povo Baga, de Guiné-Bissau, têm escoriações no rosto, nariz grande e seios caídos. Uma das representações mais conhecidas da beleza feminina é a Idia, máscara africana de Benin, feita de latão. Acredita-se ter sido encomendada pelo obá Esigie (c.1516-c.1550) em memória de sua mãe. Para honrar sua mãe, uma rainha-guerreira grande estratega militar e conselheira política, o rei usava a máscara em seu quadril durante cerimônias especiais.

 

Máscaras africanas de antepassados

A veneração dos antepassados é um elemento fundamental da maioria das culturas africanas tradicionais e, por isso, também eles são temas para máscaras. Um exemplo bem conhecido é a máscara africana Pwo Mwana (literalmente “mulher jovem”) do povo Chokwe, de Angola e República Democrática do Congo, que mistura elementos referentes à beleza feminina (face oval bem proporcionada, nariz e queixo pequeno) e outros referentes à morte (olhos afundados e fechados, pele rachada e lágrimas simbolizando a dor da morte). Representam um ancestral feminino que morreu jovem e é venerada em rituais associados à fertilidade. Os dançarinos Pwo Mwana dançam de forma elegante e graciosa e usam trajes e adereços femininos. Há também máscaras ancestrais relacionadas a pessoas notáveis, históricas ou míticas. O povo Kuba, da República Democrática do Congo, reverencia seu lendário fundador Woot com a máscara africana mwaash ambooy, e a sua linda esposa Mweel com a máscara africana ngady anwaash. As máscaras africanas trazem um padrão de triângulos brancos e pretos pintados no rosto e são ricamente decoradas com búzios e missangas coloridas. A feminina tem linhas diagonais nas bochechas representando lágrimas.

 

Estilos e materiais de confeção das máscaras africanas

O artesão que cria a máscara africana tem um estatuto especial na sua comunidade. Em geral, essa arte é passada de pai para filho, juntamente com o conhecimento dos significados simbólicos transmitidos por essas máscaras. Antes de começar a entalhar, o artesão realiza uma série de rituais na floresta, onde normalmente desenvolve o trabalho, longe da aldeia e usando ele próprio uma máscara africana no rosto. A máscara era criada com total liberdade, de forma intuitiva, dispensando rascunho. A madeira era modelada usando uma faca afiada. As peças iam do mais puro figurativismo até a abstração completa. Em geral, o material mais utilizado é a madeira e o couro mas existem também, máscaras africanas de tecido, marfim, cerâmica, cobre e bronze. Algumas têm cabelos de fibras naturais outras tem chifres ou cristas. Há máscaras africanas pintadas, outras são decoradas com missangas, penas, dentes, sementes ou búzios. As máscaras africanas podem ser usadas de quatro maneiras diferentes: cobrindo verticalmente o rosto, como capacetes envolvendo toda a cabeça, como crista ou chapéu no alto da cabeça (que era comumente coberta por material como parte do disfarce) ou penduradas no peito ou quadril.

 

Formas de uso

A máscara africana nunca é usada sozinha. O traje é componente importante para esconder a identidade humana do mascarado. A música e a dança são fundamentais para criar o ambiente propício que capta a essência do espírito. O dançarino mascarado é alguém escolhido ou iniciado nos ofícios religiosos. Durante a cerimônia de máscara, o dançarino entra em transe profundo, e durante este estado ele “comunica” com os espíritos e antepassados que transmitem mensagens. Muitas vezes, as mensagens são confusas ou incompreensíveis e precisam de ser decifradas por um homem que acompanha o dançarino mascarado durante o ritual. As cerimónias de máscaras africanas são sempre acompanhadas de dança e música tocada com instrumentos musicais tradicionais. A participação do público completa a cerimônia. Batendo palmas, marcando o ritmo com os pés, cantando e, algumas vezes, dançando junto com o mascarado, o público contribui para a intensidade do ritual. Essa forte relação entre humanos e espíritos é a grande marca da cultura tradicional dos povos da África.