Cardus Edição 57, 01-06-2019

Cobras da Guiné

Este conjunto de doze selos foi emitido pelos correios da Guiné em 17 de janeiro de 1963, ainda a Guiné estava sob administração portuguesa. Já depois da independência foi posta de novo em circulação com sobrecargas que adaptavam a série à nova realidade da, agora independente, Guiné-Bissau.

A série divulga imagens de cobras que podem ser encontradas na floresta tropical sub-húmida da Guiné. As cobras estão identificadas pela sua designação científica, pelo que, com os meios modernos, é fácil obter informação adicional sobre estes seres especiais tão adorados como temidos.

Neste mundo evolutivo em que para viver é preciso comer e não ser comido, as cobras desenvolveram meios próprios de defesa e alimentação. Há assim de tudo, cobras como a Gibóia ou Irancego (selo de 35c) que consegue dilatar as mandíbulas e o resto da cabeça e corpo de modo a conseguir comer um cabrito com cornos e tudo, outras que se enrolam à volta dos corpos e os matam por asfixia e ainda as mais conhecidas, as chamadas venenosas, que produzem um líquido, que injetado em corpos vivos pode ter consequências letais. Destas a mais famosa é a Bida ou Cobra cuspideira (selo de 20C) que consegue expelir o veneno e atingir os olhos e rosto do predador deixando-lhe marcas para a vida se não arranjar rapidamente o respetivo antídoto. A Cacuba ou Cobra da árvore (selo de 90C) é também muito conhecida na Guiné, principalmente porque existe um bichinho pequeno chamado Saninho que não só não tem medo dela como a adora comer. Inimigos declarados, sempre que se veem envolvem-se em lutazinhas, das quais o Saninho sai normalmente vencedor, o que quer dizer que morde mais do que se deixa morder. Ambos possuem veneno, quem morrer é comido pelo outro. A Abulah (selo de 5$00) é uma cobra venenosa mas inofensiva, pode-se, inclusivamente, brincar com ela. Agora, não se pode é urinar-lhe em cima, o ácido úrico deve atacar-lhe a pele, a cobra entra em desespero, mata e suicida-se, assim me foi contada esta história. As cobras também fazem bluff, a Bida, se lhe faltar o veneno que se esgota ao fim de algumas cuspidelas, não se ensaia nada em haurir um pouco de água e cuspi-la na direção do inimigo como se de veneno se tratasse.

Os venenos estão quimicamente conhecidos, a maior parte deles provocam paralisias, alguns conseguem coagular o sangue. Existem antídotos para eles, a questão é que podem não estar a jeito, as mordidelas têm de ser tratadas rapidamente se não queremos ficar com sequelas para toda a vida.

Apesar desta enorme variedade não há muitas cobras na Guiné, mas que as há, há! Todos os anos há picadelas de cobras (nas pessoas e no resto da bicharada), com a maior parte sem grandes consequências, para além dumas marcas na pele e uns pequenos inchaços que desaparecem com o tempo, mas também há casos em que a vítima acaba por morrer, isto sempre, se não for assistida rapidamente.

Segundo a OMS na região subsaariana morrem por ano cerca de 30000 pessoas por picadas de cobra. A percentagem da Guiné é naturalmente pequena, o risco parece que é maior nas ilhas (Bijagós) que no continente. Os locais não se preocupam muito com as cobras, dizem-me que raramente aparecem, contudo recomendam caminhar sempre pela estrada e em casa ter a porta sempre fechada. Caso aconteça um encontro imediato com um destes bichos, a regra é fugir a sete pés, a bicha não vem atrás de nós, fica onde está ou foge também (nem todas, a Bida parece que às vezes persegue o predador). É melhor respeitar também o horário de passeio das meninas que é no período de mais calor.

Quando os meus pais viviam em África (Angola), acordaram um dia de manhã com uma cobra junto à mesa de cabeceira. A cobra provavelmente procurava apenas um lugar mais aconchegador, ficou-lhe caro o desejo, acabou morta à paulada. Quando um guineense viu o seu irmão mais novo a brincar com uma Abulah, também não esteve com meias medidas: chamou calmamente a criança para junto de si, pegou num pau e … a inofensiva Abulah terminou como havia terminado a angolana umas dezenas de anos antes. Entre pauladas e mordidelas, não faço a mínima ideia para que lado cai o saldo.

Os antídotos para o veneno são muito antigos e não têm evoluído por falta de investimento. Segundo li foram criados para ser aplicados a cavalos, pelo que produzem efeitos laterais quando tomados. A organização britânica Wellcome Trust decidiu investir algum dinheiro nesta área através dum novo programa direcionado para a investigação e melhoramento das metodologias de assistência médica, pelo que, mais dia menos dia, vai ser possível adquirir um spray nas farmácias, que nos permita explorar o interior da floresta guineense sem correr grandes riscos.