Cardus Edição 56, 15-05-2019
O presente selo foi emitido pelos Correios da Guiné – Bissau em dez de setembro de 1974, a propósito da comemoração do primeiro aniversário da independência daquele país africano.
As referências do selo são óbvias, temos o mapa de África, a bandeira e a figura incontornável de Amílcar Cabral, considerado o pai da nação, que, contudo, não sobreviveu à data da independência.
Amílcar Lopes Cabral nasceu em Bafatá (Guiné) em doze de setembro de 1924 e faleceu em vinte de janeiro de 1973, assassinado (em Conacri) por dois membros de seu próprio partido, numa operação cujos contornos não são, ainda hoje, muito claros.
Engenheiro Agrónomo, formado no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, cedo se envolveu em lutas políticas, em paralelo com os seus congéneres de Angola e Moçambique. A sua biografia pode ser vista ao detalhe, bastando, apenas, escrever o seu nome em qualquer motor de busca da internet. Pontos importantes da sua vida foram a fundação do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), juntamente com Aristides Pereira, seu irmão Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisée Turpin em 1950 e o início da luta armada em 1963, com o ataque ao quartel de Tite, no sul da Guiné-Bissau, a partir de bases do PAIGC na Guiné-Conacri.
De destacar também, em 1970, a receção privada que lhe foi concedida pelo Papa Paulo VI juntamente com Agostinho Neto (Angola) e Marcelino dos Santos (Moçambique) que, na altura, muito incomodou o governo português.
O pensamento político de Amílcar Cabral está claramente exposto neste pequeno texto, disponível na Wikipédia que não resisto a transcrever:
"Como sabe, nós temos uma longa caminhada juntamente com o povo português. Não foi decidido por nós, não foi decidido pelo povo português, foi decidido pelas circunstâncias históricas do tempo da Europa das Descobertas e pela classe de "antanho", como se diz em português antigo; mas é verdade, é isso! Há essa realidade concreta! Eu estou aqui falando português, como qualquer outro português, e infelizmente melhor do que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria. Nós marchamos juntos e, além disso, no nosso povo, seja em Cabo Verde seja na Guiné, existe toda uma ligação de sangue, não só de história mas também de sangue, e fundamentalmente de cultura, como o povo de Portugal. Essa nossa cultura também está influenciada pela cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o especto positivo da cultura dos outros.
Nós, em princípio, o nosso problema não é o de nos desligarmos do povo português. Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro e o bem-estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais, administrativas, etc. fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque todos já seriam independentes, num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista da História. Mas infelizmente, como sabem, a coisa não é essa; o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira mais bárbara e mais criminosa e quando reclamamos um direito de ser gente, nós mesmos, de sermos homens, parte da humanidade.
Mas nós nunca confundimos o "colonialismo português" com o "povo de Portugal", e temos feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades de uma cooperação eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens seja para o progresso da nossa terra, seja para o progresso do povo português. O povo português está submetido há cerca de meio século a um regime que, pelas suas características, não pode ser deixado de ser chamado fascista. A nossa luta é contra o colonialismo português. Nós somos povos africanos, ou um povo africano, lutando contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas não deixamos de ver a ligação que existe ente a luta antifascista e a luta anticolonialista.
Nós estamos absolutamente convencidos de que, se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas fosse democrático, progressista, reconhecedor dos direitos dos povos à autodeterminação e à independência, a nossa luta não teria razão de ser. Aí está a ligação íntima que pode existir entre a nossa luta e a luta antifascista em Portugal; mas também, vice-versa, estamos absolutamente convencidos de que, na medida em que os povos das colónias portuguesas avancem com a sua luta e se libertem totalmente de dominação colonial portuguesa, estarão contribuindo de uma maneira muito eficaz para a liquidação do regime fascista em Portugal. Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português; estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo."