Cardus Edição 52, 15-03-2019

Emissão conjunta Portugal - Brasil

Em 2012, a propósito da realização da XXI Lubrapex (exposição de filatelia) em São Paulo no Brasil, as autoridades postais de Portugal e do Brasil realizaram uma emissão conjunta, posta em circulação nos dois países em sete de setembro, data da independência do Brasil. Para figurar nos selos foram escolhidos dois grandes poetas, Fernando Pessoa e Cruz e Sousa, e reproduzida uma pequena estrofe da Mensagem, no caso de Fernando Pessoa, e do Livro derradeiro (Ser pássaro) no caso de Cruz e Sousa.

De Fernando Pessoa sabemos muito, de Cruz e Sousa sabemos pouco, pessoalmente sabia nada, nem o nome conhecia. Altura, assim, de aprender alguma coisa deste grande poeta brasileiro, eis o que descobri no sítio do costume.

Cruz e Sousa não teve a vida fácil. Nasceu em 1861, os seus pais eram escravos, nasceu livre porque a escravatura tinha sido erradicada umas dezenas de anos antes. Não foram os pais que o educaram, foi o senhor e a senhora deles que, por não terem filhos, resolveram dedicar-se ao recém-nascido, que recebeu inclusivamente o apelido dos pais adotivos. O preto, filho de escravos, aos sete anos já fazia versos, na escola foi sempre um aluno destacado. Francês, latim e grego não eram problema para ele, tal como matemáticas e ciências naturais, o que prova que o conhecimento e capacidades não têm nada a ver com genes, apenas com a formação e educação de cada um.

O percurso de vida de Cruz e Sousa é típico dos grandes poetas, regra geral pleno de dificuldades, infelicidades e alguma ou muita miséria. Quer como Actor de teatro, como jornalista ou como escritor, teve sempre muitas dificuldades para garantir a sua subsistência. A vida familiar foi-lhe penosa, viu morrer dois dos seus quatro filhos com tuberculose, viu a mulher enlouquecer, ele próprio acabou por morrer tuberculoso aos trinta e sete anos de idade. A condição de preto não o ajudava em nada, foi inclusivamente preterido num lugar público devido à sua cor. Era conhecido como o poeta negro.

Os entendidos em poesia dizem que a obra de Cruz e Sousa se divide em três partes: na primeira, muita criticada, o poeta está seduzido pela brancura, o que não quer dizer que tenha renegado a sua cor, a brancura de que fala nos seus versos está muito para além duma simples cor de pele; a segunda, mais trágica, está muita influenciada pela loucura da mulher; finalmente na terceira o poeta resigna-se, desiste, sublima a dor e a miséria.

A obra completa de Cruz e Sousa foi publicada em 1961, a propósito das comemorações do centenário de seu nascimento. Consultei algumas editoras portuguesas, constatei que o livro não existe para venda em edição de papel, apenas em formato eletrónico. Tenho cinco mensagens do Fernando Pessoa, espero colocar-lhes ao lado a obra completa de Cruz e Souza, é tudo uma questão de tempo.

A literatura brasileira não está muito presente em Portugal. Contam-se pelos dedos os autores brasileiros que aparecem nos escaparates das livrarias ou nas feiras do livro e similares. Uma coisa é certa: o Brasil é dono da língua portuguesa, é fundamentalmente por ele que o Português vai sobreviver como a terceira língua mais falada das línguas europeias. Os Brasileiros fazem muito por ele, nós, os da terra onde ele nasceu, fazemos pouco ou nada: adoramos falar inglês e mais recentemente castelhano, o acordo ortográfico foi uma ofensa. Assim haja oportunidade e o português é logo renegado, venha o Inglês e já agora o castelhano na versão portunhol, até aumentamos a voz para toda a gente saber quão poliglotas somos.

O selo apresenta as primeiras estrofes do poema Ser pássaro. Deixo aqui o poema completo.

 

SER PÁSSARO

Ah! Ser pássaro! ter toda a amplidão dos ares
Para as asas abrir, ruflantes e nervosas,
Dos parques através e dos moitais de rosas,
Nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura,
Pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas,
Das auroras de abril nas cristalinas festas.
Tecer no tronco seco ou no tronco viçoso

O quente lar do amor, o carinhoso ninho,
De onde sairá mais tarde o pipilar mavioso
De um outro mais gentil e meigo passarinho.
Não temer o verão e não temer o inverno

Para tudo alcançar na leve subsistência,
No contínuo lidar, no labutar eterno,
Que é talvez da alegria a mais feliz essência.
Viver, enfim, de luz e aromas delicados

Nascido dentre a luz, gerado dentre aromas,
Sonorizando o azul, sonorizando os prados
E dormindo da flor sob as cheirosas comas.
Voar, voar, voar, voar eternamente,

Extinguir-se a voar, no matinal gorjeio,
E ser pássaro, é ter em cada asa fremente
Um sol para aquecer o frio de algum seio.