Cardus Edição 50, 15-02-2019

Vasco da Gama

O selo acima foi emitido pelos Correios de Portugal em 29 de julho de 1945, integrado numa série denominada “Navegadores Portugueses”. O selo foi desenhado por Martins Barata, gravado a talhe doce por Maxime Ferré e impresso por Bradbury, Wilkinson & Cª Ltd em Londres. Os outros navegadores presentes na série foram Gil Eanes, João Gonçalves Zarco, Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, Frey Gonçalo Velho e Diogo Cão.

O selo tem mais de setenta anos de idade, contudo, a imagem não fica a dever muito às que compõem os selos das emissões de hoje. Os CTT, que na altura respondiam diretamente ao governo, resolveram produzir uma emissão de qualidade pelo que, como é habitual na terra, mandaram fazer a gravura e a impressão fora. Provavelmente, também, porque na altura não deveriam existir em Portugal gravadores ou impressores que dominassem a tecnologia do talhe doce, uma técnica de impressão em que a imagem a imprimir é construída previamente numa chapa metálica, através de sulcos realizados com uma grande precisão e rigor, que depois serve de molde para a impressão. Esta técnica é ainda hoje usada para a impressão de notas.

Vasco da Gama foi o navegador obstinado e sem medo que, como toda a gente sabe, descobriu o caminho marítimo para a Índia, uma missão de que foi incumbido pelo Rei D. Manuel e que ele levou a bom termo. A Vasco da Gama coube realizar a parte final do projeto de se atingir a Índia, um projeto conduzido passo a passo, com os navegadores chegando cada vez mais longe, preparando o caminho (leia-se cartografando e nos intervalos mercando) para os que viriam a seguir. O grande salto aconteceu quando Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, ficando o Mundo (qual mundo?) a saber que, afinal, o Atlântico e o Pacífico estavam ligados. A partir daqui tudo pareceu ficar mais fácil, a seguir a Bartolomeu Dias avançou Vasco da Gama para a ponta final.

Vasco da Gama realizou três viagens à Índia, todas elas estão bem documentadas, faço aqui apenas um pequeno resumo:

- A primeira, mais ou menos pacífica, cuja grande preocupação foi atingir os mercados do oriente, criar alianças com os supostos cristãos, conhecer o caminho e os donos do comércio da zona. Entre a ida e a volta passaram-se dois anos, a maior parte do tempo em viagem e complicações, apenas três meses relativamente calmos em Calecut, na preparação do regresso. Dos 170 tripulantes que partiram de Lisboa apenas regressaram 54, todos os restantes pereceram na viagem ou em escaramuças.

- A segunda, com o objetivo de consolidar o poder de Portugal na zona. A armada era agora composta de vinte navios, o objetivo era mesmo dominar pela força, ao mínimo problema bombardas para cima, não só para os portos árabes, como também para outros barcos, o ataque mais conhecido da história foi o dirigido a um barco de peregrinos que vinha de Meca, em que quase toda a gente foi morta, incluindo mulheres e crianças. Nestas guerras e negociações difíceis com o Samorim andou o navegador uns meses até regressar a Portugal, obviamente não deixando muitas saudades na zona.

- Finalmente, a terceira, cujo objetivo era tentar minorar a corrupção que lavrava no vice-reino, onde as autoridades e oficiais destacados estavam mais preocupados com os seus próprios rendimentos e poder do que enviar para a Coroa Portuguesa o que esta achava que lhe era devido por direito. Esta missão não pode Vasco da Gama concluir, morreu em Cochim, na véspera de Natal de 1524, com a idade provável de 64 anos. O seu corpo foi mais tarde transladado para Portugal (como era seu desejo) estando os seus restos mortais depositados na Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Belém desde 1880 até hoje.

Em linhas muito, mas mesmo muito gerais, foi esta a vida em viagens de Vasco da Gama. Uma vida cheia, num período de grande visão e realização dos reis de Portugal.

Fontes:
https://www.biography.com/people/vasco-da-gama-9305736
Guerra Santa, Nigel Cliff, Texto Editores, Lda, 2011