Cardus Edição 70, 15-12-2019
Feliz Natal
Tempos passados em que o Natal se resumia a um jantar melhorado, uns sapatinhos na lareira ou sítio equivalente e acordar cedo no dia seguinte para a corrida ao brinquedo, apenas um, que o Pai Natal na época, além de pobre, andava de rena e trenó que não dava para transportar muitas coisas. Não havia fatos de pai natal, o pai Natal era só um, que nunca aparecia, ao contrário de hoje em dia que aparecem em todo o lado, como já são poucos ainda trazem as mães Natal, o que está certo, não é justo o pai Natal andar a passear de trenó e deixar a mulher sozinha em casa cheia de frio.
A festa da família virou festa do consumo, as prendas são aos montes, é abrir e atirar para o lado, que vêm aí mais, quando acabam é uma pena porque ainda havia espaço para outras. Papéis e embrulhos por todo o lado, tudo bem rasgado que a curiosidade para saber o que vem na caixa não dá para desembrulhar com cuidado. Tudo vai parar ao lixo, os papéis logo a seguir para o papelão que já está cheio, as prendas mais tarde, algumas ainda no próprio dia, porque são para abrir, ver e deitar fora.
Em vez dum bolo caseiro há agora bolos da pastelaria, grandes e pequenos, mais os frutos secs, chocolates, rebuçados e mais coisas de que já não sei o nome. E também muita vinhaça, para dar alegria, que o Natal deixou de ser a festa da paz, para passar a ser a festa da alegria enológica. As rabanadas também se compram, mais as filhoses e, claro, um bom Bolo Rei, que convém ser da tal pastelaria, onde se tira a senha de manhã e se vai levantar o bolo à tarde.
Há os que estão e os que não estão, as famílias são muitas, lá vai o tempo em que a família eram os pais e os filhos e alguns avós, agora é a família dele, a família dela, uma vez num lado outra vez no outro, porque todos têm os mesmos direitos. O Natal são, portanto, direitos, à festa, às prendas, ao quem fica comigo e ao quem fica contigo. Para tudo ficar equilibrado, porque às vezes não dá para juntar todos no mesmo lado, por incompatibilidades de pessoas ou falta de espaço, arranja-se ainda um almoço, janta-se num lado e almoça-se no outro, isto quando as famílias são apenas duas, pois há casos em que são mais.
A conversa na ceia de Natal é muito animada, fala-se sobre a bomba poluidora recém-comprada que ficou estacionada lá fora, sobre o governo que é tudo ladroagem, o combustível que está sempre a subir (outra vez a ladroagem), a última viagem que se fez à Cochinchina e ao Japão e sobre o último grito em telemóveis. Com um bocadinho de tempo ainda se fala dos impostos (lá vêm os ladrões novamente), pagamos uma fartazana e recebemos nada.
Claro que estou a falar do Natal dos Ricos, onde acabei por cair e de onde me é difícil sair. Mas estou em crer que um dia destes, mando a família dar uma curva e vou passar o Natal com os Sem Abrigo, para ver qual é a sensação de viver o Natal sem o aconchego da casa, sem prendas e mesa farta, apenas com a companhia das imagens e sons que as janelas abertas dos felizes transmitem para o exterior. Se tiver coragem para tal, a crónica respetiva não vai faltar.