Cardus Edição 69, 01-12-2019

Alcobaça

Confesso que tenho alguma simpatia por Alcobaça. Começa pelo nome, aberto e forte, que não se esquece e não se confunde com mais nenhum outro;

Também porque é relativamente pequena, sem os problemas das grandes cidades, mas não tão pequena que não tenha um pouco de tudo o que têm as grandes. E que tem sabido manter as suas caraterísticas básicas ao longo do tempo;

E por ter um mosteiro, um grande edifício, à antiga, com muitos espaços e muitos claustros e ainda o túmulo de Pedro e Inês, dois amantes singulares, inspiradores de arte de todo o tipo, seja poesia, escrita, teatro, ou qualquer outra manifestação. E também pela igreja interior, onde é possível ouvir os sons da missa, as ladainhas típicas, mas também os cânticos, que ecoam pelo espaço grande e majestoso, música para agradar a Deus, de que os mortais também gostam;

E pelo pequeno comércio, comércio à antiga, virado para a rua, com montras bem decoradas, com gosto, a lembrar-me o prazer antigo da volta pelas montras depois do jantar;

E, até mesmo para quem não é grande apreciador de doces, pela doçaria típica das suas pastelarias, pelas cornucópias, pelos doces conventuais, que nos levam a pensar que a vida nos conventos não era tão austera quanto se conta;

E porque tem artistas e pequenos ateliers, ceramistas, pintores, que produzem objetos agradáveis de ver, com cor, quase diria, com vida;

E porque é terra de boa fruta, de peras, dos pêssegos de Alcobaça, que agora viraram maçãs. E porque tem um rio, uma ribeira, que atravessa o centro histórico e produz uma música de fundo permanente, agradável e relaxante;

E porque tem uma câmara, do tamanho da terra, instalada num belo edifício, no meio dum espaço ajardinado e aberto, também pequeno, há muito beleza nas coisas pequenas, não é preciso ser grande para ser vistoso;

E porque tem um friso de esplanadas à frente do mosteiro, com chapéus de sol, onde, em dias de sol e de pouco vento, se está bem, de vistas e de gente,

É assim, gosto muito de Alcobaça, talvez por ser pequena e ter tudo na quantia certa, tal como nós, como o país, pequeno no tamanho, mas grande na alma.