Cardus Edição 68, 15-11-2019
Cerveja Machista
Os restaurantes são lugares que toda a gente conhece. Há-os de todos os tipos, aquele onde vamos almoçar todos os dias e se escolhe pela melhor relação qualidade/preço, outros em que já se olha mais à decoração, ao local e ao que se come, outros ainda porque são famosos e onde só vamos uma vez na vida por alguma razão. Para além de comer, os restaurantes servem também para se fazerem negócios, encontrarmo-nos com pessoas especiais ou colegas e ainda para impressionarmos alguém que nos interessa de alguma forma.
Há também restaurantes exóticos e alguns que já não existem, mas que ainda residem nas memórias de muita gente. Um deles, para quem viveu muito tempo em Angola, ou mais precisamente no planalto central, era o vagão restaurante do Caminho de Ferro de Benguela, vulgo CFB, uma linha de comboio que atravessa Angola dum lado ao outro. Este restaurante ocupava uma carruagem completa da “mala”, um comboio de passageiros que nos tempos áureos do CFB (anos 50 e 60) circulava duas vezes por semana entre o Lobito e a fronteira com o Congo. Todas as carruagens incluindo a do restaurante tinham sido produzidas em Inglaterra, com as de 1ª e 2ª classes decoradas e mobiladas de acordo com o requintado estilo colonial britânico, caracterizado por estofos de couro, madeiras nobres e cromados reluzentes.
O restaurante implantado no vagão não ficava a dever nada aos melhores daquele tempo, com a vantagem de enquanto se comia poder-se apreciar a paisagem corrida, onde se incluíam a savana, anharas, rios de grande caudal e, claro, muito animal no seu estado natural. O restaurante era administrado pelo Hotel Terminus, outro hotel famoso, situado no Lobito, que tinha sido construído para alojar os britânicos (no início da construção da linha) e como este pessoal não dispensa o requinte e luxo, assim o Hotel foi construído. O requinte não era só nas instalações, também no pessoal, com farda e postura muito próprias. Almoçar ou jantar no restaurante móvel implicava inscrição antecipada, o que era feito por um funcionário que atempadamente corria as carruagens todas, ou provavelmente apenas as da 1ª e 2ª classe, que era onde viajavam os brancos, como na altura se dizia. A 3ª e a 4ª classe eram para os pretos, novamente utilizando os termos próprios daquele tempo. Como eram mais os clientes que os lugares disponíveis, havia séries de refeições, cujo início era dado por uma campainha que um funcionário tocava à entrada das carruagens.
O vagão restaurante tinha seguramente muitas histórias para contar tal como o comboio mala, pois chegou a ser chamado o comboio do amor, já que também era utilizado para viagens de lua de mel, nas quais o restaurante e as cabines da 1ª classe, tinham a parte importante, com a cabine em lugar privilegiado. A história que se conta a seguir passou-se no vagão restaurante, não tem nada de especial, é apenas uma memória de áfrica das muitas que o autor desta crónica tem.
Para quem, nesses tempos áureos do CFB, vivia no mato e tinha de ir à escola, a solução era sair de casa e só voltar em tempo de férias. No caso desta história do passado, o mato chamava-se Catete e ficava junto à linha do Caminho de Ferro de Benguela, já perto da fronteira. A Escola era na Bela Vista, uma povoação de comerciantes com estação, perto da então chamada Nova Lisboa. A viagem de comboio durava cerca de dois dias.
O puto andava na terceira classe teria assim dez anos ou à volta disso. Nessa viagem para mais um período escolar teria almoço no vagão restaurante, assim lhe disse o pai que, entretanto, falara com o responsável do salão. No ponto certo e mais apetecido da viagem lá vai então o puto para o seu almoço à inglesa. As mesas disponíveis eram de dois lugares, quem estivesse sozinho tinha de partilhar a mesa com mais alguém. Neste caso era uma jovem, bom aspeto, bonita, o puto ficou embaraçado com a companheira ocasional da refeição. A jovem não se entusiasmou muito com o puto que lhe caiu em frente. Eventualmente deve ter feito uma ou duas perguntas, mas tudo ficou por aí: o puto meio nervoso, ela pensando na sua vida ou noutra coisa qualquer. Chegou o garçon a perguntar pelas bebidas, o puto já não se lembra do que a rapariga encomendou para beber, apenas se lembra que qualquer coisa que lhe veio do interior lhe disse que devia encomendar uma bebida que não fosse inferior à escolha da rapariga. Pediu então uma cerveja, que ele sabia que existia, mas nunca tinha provado. O garçon pediu para confirmar, a rapariga incrédula lá deu um sorriso a cair para o irónico piedoso, o puto confirmou que queria mesmo uma cerveja, bebida de homem, pelo que o garçon obediente anotou e desandou.
Naquele tempo não havia produção de cerveja em Angola, esta era importada da metrópole. As garrafas eram de meio litro, o problema não era a quantidade, mas sim o preço que era extremamente elevado como se compreende. Entretanto chegou a refeição e a cerveja cujo tamanho assustou o puto mas não o atrapalhou. A refeição decorreu sem palavras, a rapariga indiferente ao puto e este chateado por não ter impressionado a jovem com a sua cerveja.
O puto devia ter o dinheiro à conta para a refeição. Sabia que ia ter problemas, mas já não podia voltar atrás. Esperou assim que a rapariga pagasse e saísse antes de pedir a conta. Quando esta veio lá estava o preço da cerveja, provavelmente a parte mais cara da refeição, e como era de esperar o dinheiro não chegava. Chamado o chefe, um senhor bexigoso mas simpático, este rapidamente constatou que não havia nada a fazer, pelo que com ar complacente lá aquiesceu na solução do puto, que dizia que assim que chegasse ao destino, pediria o dinheiro ao tio que o esperava e viria a correr ao restaurante para pagar o que devia. O puto naquele momento tinha ideia de fazer isso mesmo, não estava a enganar ninguém, nem a si próprio. Naquele tempo os comboios paravam muito tempo nas estações maiores, como era o caso da Bela Vista onde a viagem acabava.
Chegado ao destino o puto saiu do comboio a correr e lá estava então o tio à espera, com cara de poucos amigos, como era hábito. Tinha medo dele, não teve coragem de dizer ou pedir o que quer que fosse, cumprimentou-o e seguiu com ele para casa, a cabeça e os olhos de costas para o vagão restaurante.
No fim do período escolar voltou descontraído para casa, não foi de certeza comer ao restaurante. Não foi no dia da chegada, aconteceu uns dias depois quando ele e o pai estavam a sós. Este perguntou-lhe se a cerveja lhe tinha sabido bem, corou, não disse nada, esperou pelo castigo que não deveria ser pequeno. Para seu espanto levou com um sorriso compreensivo e uma recomendação para ter mais cuidado com aquilo que bebia no restaurante. É assim quando somos miúdos: fazemos coisas que para nós não valem nada e cai-nos o Carmo e a Trindade em cima; pensamos que cometemos um crime e afinal não sucede nada.