Cardus Edição 67, novembro 2019

Elogio da Velhice

Ser velho é bom. É bom não ter pressa, saborear o tempo e os pormenores, sentir o que só se sente quando não se corre atrás do que quer que seja.

Ser velho é agradável. É como chegar ao fim duma maratona em que o prazer é saber que se chegou ao fim, que a corrida acabou, que já não é necessário correr mais.

Ser velho é descobrir que a eternidade não existe, que tudo se transforma, tudo muda, tudo se renova incluindo pessoas.

Ser velho é saber que estamos a prazo, que o fim está cada vez mais perto, não se sabe aonde nem quando, apenas que está cada vez mais perto.

Ser velho é estar despreocupado. É saber que já não vale a pena, a zanga, o sonho, a ambição, o investimento. Apenas valorizar e rentabilizar os valores materiais e humanos que se têm e descobrir que se tem muito.

É desistir de mudar o mundo, é assumir que é o mundo que nos muda a nós.

Ser velho é ser sábio. É saber tudo. Saber como o mundo e as pessoas funcionam. Saber no que vão dar certos projetos e sonhos. E saber não dizer nada, porque ninguém quer saber, deixar cada um construir a sua vida de sucessos e insucessos.

Ser velho é constatar que não somos o centro do mundo e que já fizemos as figuras de ridículo que agora vemos os outros fazer.

Ser velho é bom por se poder viver fora do mundo moderno: complicado, tecnológico, seco, mercantil, virtual, ou provavelmente e apenas … diferente.

Ser velho é ser livre: de obrigações, do dever, da responsabilidade, da preocupação por aqueles que cá pusemos e pelo que fazem.

Ser velho é poder fazer ou dizer disparates e não ser punido ou recriminado por isso. É como ser criança a quem tudo se desculpa ou aceita.

Ser velho é ser surdo não ouvir o que se diz, ou ouvir apenas o que se quer, filtrar o som, deixar passar o limpo e bloquear o lixo.

Ser velho é isto e muito mais. É ter tempo para escrever banalidades como estas, ver o sol nascer todos os dias, fazer o que há que fazer sem pressas, sorriso nos lábios, ao fim do dia deitar, adormecer e, ao acordar no dia seguinte, saber que ainda não foi nessa noite que o céu lhe caiu em cima.